• Capitolina Revista

Decio Zylbersztajn - As Nossas Máscaras




As máscaras voltaram, talvez sempre tenham estado presentes de forma oculta. Em tempo de pandemia elas ressurgem, assim foi durante a Peste Negra, assim foi na Gripe Espanhola, ignorá-las seria fechar os olhos à magia, seria como desprezar a criatividade humana.

Há máscaras que assumem a forma de objeto, outras têm o papel metafórico de nos conectar com a esfera do mundo ritual como aquelas utilizadas no teatro a simbolizar a comédia e o drama. Na ritualização da vida e da morte as máscaras aparecem nos cultos onde personificam a luta entre o bem e o mal, entre a luz e a sombra, entre o yin e yang, ou dão vida aos orixás afugentando os espíritos do mal, puro exemplo do inconsciente coletivo. Sem elas ficaríamos desprotegidos e com o rosto nu.

Além do simbólico, as máscaras se associam às múltiplas identidades que carregamos, ao reconhece-las não raro nos surpreendemos com os seres que em nós habitam como parte da nossa persona. Algumas máscaras, nós as criamos para ocultar alguma identidade indesejada. Nossas múltiplas faces, estas que muitas vezes nos surpreendem, longe de serem uma patologia, refletem a complexidade do caráter humano e são úteis para sustentar o nosso convívio. Com a maturidade, escolhemos, entre as máscaras que temos, aquela mais adequada a cada situação e a cada interlocutor. As máscaras nos permitem lidar com o outro, com inferno que é o outro que nos atormenta, como disse Sartre.

Se temos múltiplas máscaras é preciso escolhe-las. Amartya Sen descreve uma cena no livro “Identity and Violence: the illusion of destiny”, na qual retrata um desembarque no aeroporto de Heathrow voltando de uma visita ao seu país de origem, a Índia. O que seria um episódio sem relevância deixou de ser quando um agente de imigração o abordou de forma pouco delicada, e arguiu. Quem é o senhor? O autor descreve a sua reação mental de escolha da identidade que melhor o representaria naquela circunstância um tanto ameaçadora. Ele poderia afirmar que era um hindu residente no Reino Unido, poderia dizer que era um homem de cor negra ou parda, poderia dizer que era filósofo, que era o Master of the Trinity College em Cambridge, ou que lhe fora outorgado o Prêmio Nobel de Economia, ou ainda que era simplesmente um cidadão voltando para casa. Qual a máscara apropriada a utilizar naquele momento?

As máscaras podem ir mais longe, ao invés de nos revelarem determinado perfil, podem ser utilizadas com a intenção contrária, de ocultar uma identidade para garantir o anonimato. Máscaras de carnaval existem para que sejam ocultados desejos incongruentes com as identidades públicas de quem as utiliza. No carnaval, quando tudo é permitido, quando os desejos contrários ao código moral são postos a nu, as máscaras servem para revelar o lado oculto da personalidade, protegendo do julgamento moral a reputação de quem as utiliza. Com a máscara tudo será permitido, sem mácula. A máscara do anonimato reaparece no estado virtual nos perfis falsos de grupos sociais na internet que são uma reconstrução sofisticada da máscara objeto e replicam a intenção de ocultar a identidade. No espaço da web tudo é permitido sem penalidade.

No teatro, duas máscaras simbolizam o drama e a comédia, pois eram utilizadas para ampliar o alcance da voz do ator, para permitir que fossem ouvidos. Per sonare, leva à raiz etimológica de persona.

Na obra literária existe um paralelo ao teatro, a máscara amplia o seu papel, tem a função de fazer soar a intenção do autor no processo de criação do personagem. Na ficção, a matéria prima que o autor utiliza para esculpir o personagem são os padrões do comportamento humano que conferem caráter de universalidade e atemporalidade. Entretanto, os padrões sem ornamentos serão insuficientes para completar a construção do personagem. Será preciso espalhar cores na face da máscara, conferir-lhe tempero, cheiro, imagem, identidade.

O personagem, convincente ou não, resultará do fino labor do autor que inicia o trabalho de criação tendo em mãos apenas um conjunto de máscaras sem carácter, apenas moldes diferentes com a superfície em branco. O autor terá o trabalho de dar visibilidade ao personagem pela sobreposição das tintas que ele dispensará sobre a superfície em branco das máscaras. O molde sem acabamento pode ser visto como um padrão arquetípico e a pintura sobre sua superfície refletirá a competência do autor de colocar o personagem no mundo. Portanto, a criação de personagens resultará da competência da autora ou do autor em utilizar padrões arquetípicos somados às características de identidade.

Do trabalho de criação emerge uma obra que não estará pronta, para tanto precisará de contar com o ato mágico da leitura que revelará se as escolhas foras adequadas, se as máscaras foram convincentemente escolhidas e adornadas. O momento em que o leitor toma a máscara pronta das mãos do autor e a coloca sobre o rosto, é quando se dá a magia da finalização da obra. O leitor, no ato da leitura, toma contato íntimo com o autor, entra na sua casa, come na sua mesa, dorme na sua cama. O leitor experimentará o molde e observará a pintura exterior das máscaras, dos personagens, das identidades expressas na obra.

Voltemos às máscaras da pandemia. Ao finalizarmos a leitura de um livro, colocaremos a máscara que nos protegerá do ambiente infecto, uma máscara protetiva e sem adornos que reflete um gesto de apego à vida. Talvez as máscaras nos permitam viver para ler o próximo livro, talvez não, mesmo que convoquem todos espíritos que elas representam.


Sobre o autor:


Decio Zylbersztajn nasceuno Bom Retiro, em São Paulo, em 1953, e estudou em uma escola pública do bairro. É agrônomo e é PhD em Economia, tendo completado sua formação nas Universidades de São Paulo, Carolina do Norte e Berkeley, Califórnia (EUA). Publicou os livros de contos “Como são cativantes os jardins de Berlim” e “Acerba Dor”, e o romance “O filho de Osum”, todos pela Ed. Reformatório. Atua no Duo Vereda Violeira dedicado à música raiz e viola caipira. Organiza saraus e é curador do Clube de Leitura da cidade de Gonçalves, Minas Gerais. É co-curador do Festival Literário Além da Letra, na cidade de Gonçalves (MG).

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