• Capitolina Revista

Daniela Santi




O menino que ri




There is one thing children find harder

to hold back than tears, and that is joy.


Karl Ove Knausgård, A time for everything





Olho fixamente para o desenho da América do Sul no peito do menino que ri.


O tempo se deteve enquanto ele ria.


Para todo o sempre: aponta com o dedo e ri.


A mão esquerda na cintura.


O indicador direito em riste, à altura do queixo.


A boca aberta de par em par. A cabeça para trás.


O short torcido para um lado, a camiseta torcida para o outro.


A meia direita más alta que a esquerda.


O torso largo, as orelhas escondidas debaixo dos cabelos, os olhos abertos apesar de que ri.


Ri, mas.


Não há mas.


Apesar, talvez.


Um dia, entra pela porta do meu quarto: seu primo vai mal no colégio, talvez se lhe ajudasse…


E ali fica.


Eu tento, mas.


Não há mas.


Tento e me responde outra coisa.


Cada vez, cada vez.


Como se minha voz estivesse em outra frequência.


Não minha voz, senão: três vezes quatro. Oito vezes nove. O plural de noz. O coletivo de abelha. O maior osso do corpo humano. O que seja que eu quisesse… ensinar-lhe?


Entra pela porta outra vez. O tempo se repete.


Fala pelos cotovelos. Conta histórias. Diz o que pensa. Ri.


De repente, seu rosto escurece.


Antes, ia à casa da professora. Vai mal no colégio… Ela se ofereceu para ajudar… A mãe adorava a professora.


Vai.


Ela lhe toca o sexo. Depois, deita no sofá com as pernas abertas e diz: vem.


O que foi que eu fiz?, me pergunta. Ou: Estou ficando louco. Não lembro bem suas palavras, somente seus olhos, sua confusão, minha confusão.


Nunca dissemos nada a ninguém.


Tudo veio abaixo e o segredo ficou ali, guardado.


Aponta com o dedo e ri.


Do rato morto que os meninos explodiram com bombinhas, ha ha ha.


De sua mãe histérica arrancando suas roupas imundas, ha ha ha.


De que me tenham capturado. Não sabe que eu tenho um anjo… Onde será que se meteu?


Ha ha ha.


Entro pela porta do seu quarto: sua prima fugiu de novo, blá blá blá.


Ataca seu irmão a socos. O pequeno grita como um ninja, enche-lhe de pontapés. Estão só brincando.


Ri.


Colocam-me para dormir no chão, entre suas camas. São como duas asas. Vou dormir e voar.


Aconteça o que acontecer, uma criança sempre consegue dormir.


No dia seguinte, chega o homem. Vai me levar com ele. Vai me dizer de novo: baixa as calças.


Não, não, não.


O medo me congela os ossos. Estou paralisada.


Conto ao menino. Ele franze a testa. Pega as tuas coisas. Pula a janela. Corre!


Estou paralisada. Pega a minha mão. Corremos.


Sem parar.


Numa esquina, um ônibus para e abre as portas.


Antes que eu me dê conta, estou dentro.


Olho para o menino afastando-se na distância, cada vez menor. Até desaparecer.


O menino ri.


O menino morre.


Não lhe disse adeus.



A AUTORA


Daniela Santi é doutora em cinema pela Universitat Pompeu Fabra de Barcelona e autora de poemas, contos, ensaios, artigos e críticas publicados no Brasil e na Espanha. Atualmente vive em Lisboa.




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