• Capitolina Revista

Daísa Rizzotto Rossetto

SEM FUTUROS



Eram tomates estragados que ajeitou entre fatias de pão. O pão era seco, re-aquecido e insólito no risco de quebrar um dente. Nos olhos caíram riscos de vinagre, a cabeça limpa ou quase. Não arderam, não piscaram, sentiram a seca acidez da lágrima, a superfície banhada de olhos que se molharam no banho escuro. Banho de luz apagada. Talvez tenha sido, fosse, foi, é, ainda seja, será o pão que o diabo amassou. Ainda assim era o pão. Ainda assim é pão. Ainda era uma migalha recoberta por grossas camadas de negativos e negações, ainda era o afogamento entre mares de mundos largados de palavras perdidas, termos errados, mundos falidos. Fora o que lera no pé do ouvido enquanto nadava, enquanto matava a sede no mar de mundos falidos, enquanto supera a fadiga com mais cansaço, enquanto resiste réstia quando um mundo a engole devorada pelos ossos, jogados de um lado para o outro. Um saco, uma caixa. A entrada triunfal pelas portas laterais, do fundo para fora... Não há lado, entrada ou subida. Depois da porta os sacos acumulados, entupidos até as bordas. É vez nenhuma. O vestido gasto, o pano manchado, a alça caída, amarrada no fundo com a cor desbotada. É o pedaço da orelha arrancada, pedaço na caixa. É o pão seco, mastigado na saliva, é a saliva acumulada entre dentes para matar a sede. É o pior dos caçadores. É caçadora. “Sou o pior dos caçadores… Mato vontades, ares, desconfio a mira em sonhos. Mato a sede e a fome na saliva quente. Morro com medo. Mato. Persigo. Miro. Arapuca. Miro. Caço pegadas, rastejos. Sinais de bicho. É quem passou. Seguro o gatilho. O que sou? ” “Que não tornem nenhum dia mais fácil, que não haja um puto de um ladrão no bolso, que não haja nunca nada, nem dinheiro nem sinal de felicidade. Apaguem os mares do farol, ponham o corpo para deitar sob a ponte a sentir o cheiro, a cor diluída do esgoto, o gosto de ver no mergulho do céu o infinito das asas, os braços abertos. Viver vale tão pouco... Que não haja a resposta nem a esperança por ela e que assim a palavra da palavra nela mesma não se perca, não perca jamais o ar, a graça, a brincadeira de respirar quando o mundo nada e afoga-se bêbado trôpego, molhado no pão seco, amassado… Caçado, caçando… Amassado sem ser nada de mal. ...e me matem, pobre, doente, ruminando peles, calculando migalhas. Caída, antecedida no horizonte, a pintura e a orelha… que continue esperança esperada, o lado de fora, o sem saber de um verso, um único verso, três pontos... Uma esperança sem esperança.” Na superfície o acúmulo de notas e cupons e infelizmente(s). Era uma gota de sangue que inundava as bordas, invadindo o limite entre a unha e a pele. Era o indício de pulso que ainda havia. Lavou-se com azeite, jantou no escuro como no sempre, engoliu talvez também o escuro enquanto fugia - ou fingia - das portas de dentro. Era a caça. Despedira-se das entradas do meio, corria no eco dos tiros. Teve medo de tocar a parede e ela se romper. Ao atravessar a rua ou a ponte não olhou para os dados nem para os lados. Sucederam-se os pés mas não percebeu e quando deu-se por conta o corpo ainda pulsava no outro lado. Desconfiara da existência de Deus no voo, quando perdia os olhos nas nuvens embrulhadas pelo sol. O reflexo, o redesenho. O acima das nuvens. E o rasgo, no arrasto, o rastro, a fuligem, o ranço e o rasgo sempre do tecido gasto, da pele no muro, na parede. Na peneira da pele morta, um resíduo de corpo sorvido no ar, soprado na mão espalhada. Uma nota, um papel, um número, um apelo, o vômito e a fome, o sem dinheiro, o sem direito. O não ser. A cópia, as horas, o fim e o recomeço da máquina e a martelada carimbada. A dor do braço. Os pés tortos, as pernas machucadas. Perder o horário. A noção do tempo, desconhecer o tempo e a face, ir-reconhecer adiante, adiantar-se no que não adianta e esquecer-se de futuro ou segurança. Escolher - não é escolher - a fome, o pão amassado, a sede do sangue. Escolher o não futuro, seguir adiante. Não saber o que é o adiante. O posto. Posta para fora. Deposto, destruído e quebrado. A cara quebrada, o rosto marcado, os dedos sangrando, a pele dura, seca. Os furos abertos, o desague. O último passo até cair, o passo depois do último passo e depois de cair. Sobreviver mas não resistir e desistir e continuar aí… Com a cara arrastada. A cara arrastada no sol e no vômito, numa nota que rasga qualquer ensejo de dignidade, o apelo que perdeu a esperança de desconfiar no amanhã ou adiante… De que adianta? Cante, cante e não peça fiança, não faça da voz um número, nem das mãos páginas, capas, pedaços duros brilhantes. Só canta - rua - o som das pedras que não te pertencem - tu és -, canta a voz sem número, canta e não esperes por futuros.


A AUTORA


Quem eu sou está no que escrevo, nada além.

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