• Capitolina Revista

Cris Vazquez - Ensaio




A MÃE COMO FIGURA SIMBÓLICA EM O PROGRESSO DO AMOR E ELES ERAM MUITOS CAVALOS



Por meio deste ensaio, faço uma leitura comparativa entre o conto O progresso do amor, da escritora canadense Alice Munro, e o romance Eles eram muitos cavalos, do escritor brasileiro Luiz Ruffato, investigando o modo como a figura da mãe é representada em cada narrativa. Ao fazê-lo, adentro em temas como memória, ressignificação de afetos e migração, questões que se relacionam ao cotidiano, segundo teóricos como Michael Sheringham e Michael Gardiner, quando este recupera Michel de Certeau. As representações distintas da figura da mãe são replicadas nos aspectos formais de cada obra, sendo a primeira tradicional, e a segunda uma narrativa de vanguarda.

Inicialmente, é necessário pontuar que o cotidiano não diz respeito somente às práticas reiteradas do nosso presente, mas também àquilo de que nos lembramos com nostalgia, por já ter feito parte da nossa vida, e que podemos ressignificar ou substituir por outros afetos. Michael Sheringham aduz:

Thus, for example, if the everyday is always connected to the short term, because it has to do with interaction, regular returns of the similar, it is not restricted to the instant. Embracing the archive of previous occurrences that make an activity generic, habitual or regular, the quotidien is also the terrain of resurfacings, recognitions, and connections. As a result, the everyday partakes of that aspect os phenomena that becomes the stuff of nostalgia. The presentness of everyday things steams from their belonging to a comunal flow, to a time that whashes around historical events, leaving the kinds of fotsam and jetsam Perec so memorably enumeratd in Je me souviens. There, in Perec’s book of erstwhile, everyday matters, we are reminded of how things are constantly replacing each other in our affections, in the living space we share with others, and in the living time of day-by-day experience. (2006, p.363/364)

O mesmo teórico também sustenta que a escrita do cotidiano testemunhou uma remodelação da autobiografia no final dos anos 1970. Houve o surgimento da autoficção, ao esfumar as fronteiras entre realidade e ficção. Além disso, a memória passou a ser vista como um reino perturbante e perturbador (2006, p. 346).

No campo autobiográfico, entre o nascimento e a descrição da casa da infância, a figura da mãe surge como tema recorrente, pois ela representa a origem do sujeito (CABALLÉ, 1995, p. 93). Aos dizeres da teórica da Catalunha:

Se diría que la afirmación de la identidade del autobiógrafo pasa por la necessidade de exaltar sus orígenes que, obviamente, reposan em la figura de la madre, impermeable a los vaivenes psicológicos e intelectuales propios de toda evolución personal. (1995, p. 100)


A mãe é figura que se repete nas escritas de vida porque, ao menos idealmente, está presente no cotidiano de cada sujeito em forma de colo, alimento e compreensão, desde o nascimento até a independência. Assim, durante grande período da vida do indivíduo, a relação mãe e filho é construída e adquire significado dia após dia, já que a formação dada pela mãe contribui para moldar a personalidade do filho, seu sistema de valores, modos de se relacionar com o mundo. À medida que a mãe não traduz mera presença física, mas uma miríade de significados, passa a ser uma figura simbólica, podendo inclusive ser substituída por outra que produza o mesmo sentido. Sheringham define o cotidiano por meio de figuras simbólicas como a casa, a rua, a cidade, uma vez que elas originam memórias (2006, p. 363). Como já anotado, o simbolismo da figura da mãe, como fundadora de toda a origem e irradiadora de memórias, é anterior à figura da casa.

Sem adentrar na similaridade entre a biografia de Alice Munro e os temas e cenários de suas obras, o fato é que O Progresso do amor trabalha com a memória, ao entrelaçar o tempo presente com a recuperação do passado. Inicia quando a personagem central Euphemia, adulta, recebe uma ligação do pai, avisando sobre a morte de sua mãe. Embora considere que a mãe nunca foi um fardo, sente-se aliviada. A partir daí, Euphemia relembra a infância com seus pais numa fazenda em Netterfield, cidade fictícia no Canadá, mas também recupera a infância de sua mãe Marietta, vivida em outra cidade pequena, Ramsay. No entanto, narrar a infância de Marietta significa rememorar um trauma que esta sofreu em relação à própria mãe. Ocorre que

as feridas de Marietta são ressignificadas por Euphemia, e não chegam a afetar sua vida adulta, pois já criou dois filhos, é divorciada e tem relacionamentos livres. Além disso, admira a relação de companheirismo dos seus pais.

Tal árvore genealógica é traçada pela tessitura de episódios presentes e passados que abrangem um longo arco temporal, cuja transição acontece de forma tão tranquila quanto a vida no campo, levando o leitor a compreender a importância da origem familiar na formação da identidade de Euphemia. Assim, o título do conto adquire o sentido de progressão temporal, um retrato das relações afetivas ao longo das gerações.

Eles eram muitos cavalos, por sua vez, tem por epígrafe os seguintes versos do poema Dos Cavalos da Inconfidência, de Cecília Meirelles:

Eles eram muitos cavalos,

Mas ninguém mais sabe os seus nomes,

sua pelagem, sua origem...

Em seu romance, Luiz Ruffato narra em fragmentos 70 episódios ocorridos com diferentes moradores da cidade de São Paulo, principalmente da classe trabalhadora, no período de um dia eleito pelo narrador: 9 de maio de 2000. Jogados em cena na grande metrópole, engolidos por sua velocidade e violência, e pelas engrenagens do capitalismo, tais sujeitos parecem não ter origem, ou ela não mais importar. Nesse sentido, a obra contrasta com O progresso do amor.

No entanto, há um ponto de contato entre elas. Se olharmos no calendário, dia nove é a terça-feira que antecede o segundo domingo daquele ano, isto é, o Dia das Mães. Há quatro fragmentos que mencionam a data comemorativa, e outros dez, em que aparece a figura da mãe. O fragmento 6, intitulado Mãe, narra a viagem de ônibus de 48 horas de uma senhora que sai de Garanhuns/PE para passar a data com o filho que não vê há muitos anos, desde que foi ganhar

a vida em São Paulo. Outros três episódios demonstram a preocupação dos filhos mais com o presente do que com a mãe, como prática da cultura capitalista que coloca o consumo à frente do indivíduo. É o que acontece no fragmento 19, em que o filho cometerá um assalto para conseguir dinheiro para comprar à mãe um aparelho de CD.

A maioria dos 70 episódios de Eles eram muitos cavalos revela o desencanto do sujeito com a vida na grande cidade, mas na maior parte dos 14 fragmentos em que aparece a figura da mãe, há esperança de redenção. À exceção da violência, nenhum tema se repete mais e, se for possível encontrar um tênue fio de afeto na narrativa, será nas aparições da mãe. No episódio 20, há o filho que sente saudades da mãe falecida há dez anos, que penteava seu cabelo mesmo depois de adulto e, no fragmento 47, o filho orgulhoso da mãe trabalhadeira, que mandava embora o macho que queria bater nela. No fragmento 38, há uma menina apegada à mãe diarista e ao pai instalador de ar-condicionado. Constituem uma família que se respeita e costuma frequentar a igreja, como a da personagem Euphemia. A exemplo da narrativa de Munro, há esperança de uma vida emocional equilibrada apenas para os personagens de Ruffato que reconhecem sua origem.


Alice Munro Luiz Ruffato


Há episódios, contudo, em que o afeto materno não consegue conter a violência da cidade, como no fragmento 34, em que a mãe vira andarilha depois que a filha de 11 anos desapareceu na volta da escola, ou no 39, em que a mãe alcança o lanche da filha balconista pelo muro da casa vizinha à loja, mas esta é morta num assalto enquanto almoçava.

No fragmento 41, monólogo de um taxista que se considera sem família por ter saído do Nordeste quase criança, surge uma frase reveladora: “São Paulo, uma mãe pra mim”. Para o migrante, a cidade que o alimenta substitui a figura da mãe como lugar de afeto. E tem mais. O taxista adota uma postura otimista em relação à vida, lembrando as ideias do filósofo Michel De Certeau, a quem Michael Gardiner dedica um capítulo na sua obra Critiques of Everyday

Life (2000, p.157/179). Gardiner destaca as prospecções de Certeau no sentido de que o indivíduo não precisa ficar adstrito às suas condições sociais, a que as esferas de poder não atentam, mas pode reinventá-las por meio de táticas criativas em sua prática cotidiana. Dentre elas, estariam formas diferentes de ler, caminhar, morar, trabalhar, o que considera uma espécie de resistência. Ao ler um texto, por exemplo, o leitor pode interpretá-lo da maneira que mais fizer sentido para ele e ninguém deve criticar isso, o que se coaduna com a teoria da recepção. Se pensarmos na migração, é a mesma tática que está em jogo. O indivíduo percebe que o sistema socioeconômico e geopolítico não vai lhe proporcionar melhores condições de vida, e encontra na migração uma possibilidade de ascensão social.

Assim, o taxista sai de Sergipe de pau-de-arara, a rapadura e farinha. Chega a São Paulo, constitui família, ganha dinheiro, perde, e hoje come churrasco na casa de praia do genro, que também ascendeu socialmente pelo trabalho. De Certeau é considerado utópico comparado a outros filósofos como Foucault (GARDINER, 2000, p. 179), tanto quanto o taxista pode ser visto em relação aos demais moradores retratados na obra, mas é inegável que o personagem representa a possibilidade de resistência à cultura capitalista dominante, pela via da criatividade. Ele não pode ser mais De Certeau, ao iniciar seu monólogo com a seguinte pergunta ao cliente: “O doutor tem algum itinerário de preferência? Não? Então vamos pelo caminho mais rápido. Que não é o mais curto, o senhor sabe.” O taxista é honesto, não dobra o preço, como diz que outros fazem com gente de fora. Honra a cidade-mãe que escolheu para si, como gostamos de homenagear nossas mães. Tal qual Ruffato declarou ter escrito Eles eram muitos cavalos como um tributo à cidade de São Paulo.

A homenagem de Luiz Ruffato não passa pela memória, como acontece em O progresso do amor, mas também pode ser considerada uma escrita de vida, à medida que retrata o cotidiano. O autor diz que Eles eram muito cavalos não chega a ser um romance, mas uma

instalação literária. De fato, é uma narrativa de vanguarda. Sheringham destaca a crônica, a escrita ensaística e as escrituras ordinárias que conjugam etnografia, autobiografia e cotidiano, em fragmentos como listas de compras, graffiti, cartões-postais, memorandos, diários de viagem – tendência verificada desde Mitologias, de Barthes –, como exemplos das formas híbridas observadas na pós-modernidade (2006, p. 352/353). De fato, os fragmentos de Ruffato misturam poesia, teatro, propaganda, música, carta, para narrar a polifonia urbana. Até mesmo quando traça a figura da mãe – e embora eu tenha logrado fazer um inventário nas linhas acima –, suas pinceladas são ligeiras, abstratas, esfumadas dentre outros elementos da pintura. Quanto à forma, a figura da mãe em Eles eram muitos cavalos não é um personagem bem caracterizado, podendo ficar perdido entre os demais instantâneos narrativos, para um leitor desatento ou desinteressado no tema.

Já em O progresso do amor, a mãe Marietta está pintada como um retrato, assim como os demais personagens. Observada sua forma, é uma narrativa tradicional. Um conto, como todos da Alice Munro, com arcos temporais tão longos e personagens tão bem caracterizados, que parece uma novela. Sabemos quem é a menina traumatizada por achar que a mãe iria se enforcar por ter problemas com o pai, quem é a moça que encontrou salvação na religião e no casamento, quem é a mãe que cantava uma cantiga de fundo feminista para a filha Euphemia, enquanto emendavam o papel de parede barato que compraram, antes de o colocarem. O papel floral que a Euphemia corretora revê emocionada no retorno à casa da fazenda depois da morte do pai, embaixo daquele psicodélico dos hippies para quem venderam a propriedade, mais embaixo da tinta aplicada pelo último proprietário.

Assim, do texto tradicional ao fragmentado, em meio à calma das pradarias ou à selva capitalista, o que todos parecem buscar é a simbologia do afeto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CABALLÉ, Anna - Narcisos de tinta. Ensayos sobre la literatura autobiográfica en lengua castellana (Siglos XIX y XX). Malaga: Megazul S.A., 1995.

GARDINER, Michael. Critiques of Everyday Life. Routledge, 2000.

MUNRO, Alice. O progresso do amor. In: MUNRO, Alice. O progresso do amor. Copyright 1986. Tradução Pedro Sette-Câmara. São Paulo: Biblioteca Azul, 2017. E-book, Posição 40 até 511.

RUFFATO, Luiz. Eles eram muitos cavalos. 11ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

SHERINGHAM, Michael. Everyday Life: Theories and Practices From Surrealism to the Present. Oxford University Press, 2006. ProQuest Ebook Central, http://ebookcentral.proquest.com/lib/uwinnipeg/detail.action?docID=4964518.



Cris Vazquez é escritora e Mestra em Literatura Brasileira pela UFSC e em Escrita Criativa pela PUC/RS.



A AUTORA

Cris Vazquez nasceu em Rosário do Sul/RS Cursou Letras na UFRGS. É advogada pública em Florianópolis e Mestra em Literatura pela UFSC. Tem contos publicados em antologias resultantes de premiações literárias, como o 2º Habitasul Revelação Literária na Feira (2002) e Iº Concurso Literário Machado de Assis, da Canal 6 Editora (2016), além de outros, publicados em revistas digitais, como São Paulo Review, Philos e Dia zero. Em 2015, cursou a Oficina Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil, do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, de que seguiu sua participação, com três contos, na antologia “Onisciente contemporâneo” publicada em 2016. Em 2016, foi finalista no Prêmio SESC de Literatura, na categoria Livro de Contos. Atualmente, colabora como escritora no site A Boa Prosa e participa de projetos que aguardam publicação.


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