• Capitolina Revista

Carola Saavedra

Rumo ao Sul




Era muito cedo ainda, o sol acabara de nascer. Um homem num barco remava em direção ao sul. No trajeto do rio em direção ao sul as terras iam e vinham, fugiam e se aproximavam. Numa dessas terras, o homem viu um bicho de quatro patas. O bicho pastava na beira da terra e não via o homem que ia e vinha e agora se aproximava. O bicho só pensava no pasto e se viu o homem, não teve medo dele. É possível que o bicho de quatro patas nunca tenha visto um homem de duas patas num barco sem patas como os peixes. É possível que o bicho de quatro patas nunca tenha visto um homem de duas patas em lugar nenhum. É possível que por isso, continuasse imóvel, porque os bichos só veem o que sabem identificar.

O homem viu o bicho que pastava na beira da terra. O homem ia rumo ao sul em seu barco. Debaixo do barco havia a água e os peixes. Ao lado da água e dos peixes havia a terra que ia e vinha e se aproximava. Debaixo da terra havia um morto e os caracóis que saiam das órbitas de seus olhos. Mas o homem estava vivo. O homem vivo tinha olhos estranhos, eles olhavam rumo ao sul, como se fossem levemente vesgos. Ao lado havia uma extremidade de terra que ia e vinha e o bicho que pastava e não olhava para lugar nenhum, só para dentro de si mesmo e do pasto dentro de si mesmo. O bicho sonhava sonhos estranhos e ao mesmo tempo conhecidos, como se sonhasse os mesmos sonhos de outros bichos e talvez, até do próprio homem. O bicho mastigava o pasto que não acabava nunca e não acabava nunca de ser mastigado, o bicho não tinha pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo. Mas o homem ia e vinha e se aproximava rumo ao sul. O homem era moreno e o bicho era marrom, o homem não tinha pelos, o homem era liso, o bicho era marrom e tinha pelos escuros sobre a pele fina. O homem não tinha pelos sobre a pele morena. O homem tinha a barba recém-feita, o bicho tinha uma barbicha. O homem não pensava nessas coisas. O bicho não pensava nessas coisas.

O homem se aproximou e o bicho não fugiu, apenas continuou ali mastigando, olhando para dentro de si mesmo e o pasto que ia e vinha dentro de si mesmo. O homem se aproximou e pegou o bicho pelo pescoço e o puxou para dentro do barco. O homem era forte e queimado pelo sol de quem anda de barco rumo ao sul. O bicho não sabia em que direção ficava o sul, o bicho também não sabia em que direção ficava o norte. O homem pegou o bicho pelo pescoço a com o facão que levava preso à cintura fez um corte profundo e misterioso e transversal no pescoço do bicho que nem teve tempo de perceber que o tempo se esvaia e que o pasto em seu corpo não tinha mais como seguir sua trajetória, rumo ao norte rumo ao sul. O homem fez então um rápido corte profundo e misterioso e longitudinal no ventre do bicho, que olhava para dentro de si mesmo, e que não teve tempo de perceber que o dentro de si tornara-se fora, tornara-se o mundo lá fora. O bicho tornara-se o mundo lá fora e tornara-se o homem que era o mundo lá fora e que se tornara o bicho. O homem colocou então sua mão dentro do ventre do bicho e tirou de lá a matéria que fazia do corpo do bicho um bicho, e que antes pulsava dentro do corpo do bicho e que agora ainda pulsava na mão do homem que se dirigia rumo ao sul. E o pasto que antes se dirigia rumo ao norte rumo ao sul agora se dirigia rumo ao sul entre os dedos do homem. O homem não pensava no bicho, nem o bicho nunca havia pensado no homem. Mesmo quando o viu se aproximar. Porque o bicho só percebia o que era capaz de reconhecer. O homem pensou no bicho ao se aproximar. O homem pensou no bicho quando colocou a mão dentro do ventre e retirou o que havia do mistério de dentro do bicho. Mas foi um pensamento muito fraco, que nem chegou mesmo a tomar corpo. O homem não tinha corpo. O homem pensou no bicho como se sonhasse. O bicho só teve tempo de olhar para o homem como se o visse pela primeira vez.

Quando terminou de tirar o interior do bicho e jogar o que havia dentro do bicho para fora do barco, para os peixes que se aglomeravam junto ao barco pressentindo o interior do bicho que agora era o mundo lá fora, o homem continuou em direção ao sul e o bicho sem o seu interior continuou em direção ao sul junto ao homem. O interior do bicho era o mundo lá fora. O homem pensou que o sul se aproximava. O bicho estava oco e não pensou.


© Carine Wallauer

Carola Saavedra é autora dos romancesPaisagem com dromedário (2010), O inventário das coisas ausentes (2014)e Com armas sonolentas (2018), entre outros. Seus livros foram traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Desde 2019 é professora e pesquisadora na Universidade de Colônia, Alemanha.

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