• Capitolina Revista

Carlos Eduardo Pereira




PASSAGENS TRUNCADAS DESCULPE NO GOOGLE TRANSLATE


Um sujeito como o Jônatas – um bróder mais ou menos com essa pinta dele, mas bolsista de instituição de ensino respeitável –, um sujeito como o Jônatas até que consegue adentrar nos Estados Unidos pela porta da frente. Só que ele entra cabreiro.

(Estive tentado a seguir com esta anedota informando que Jônatas não domina o idioma local. O que é verdade, mas tem como ser mais preciso. E, dita desse jeito, a coisa fica muito leve. Então para ser o mais fiel ao coração dos fatos, o correto é dizer que este sujeito entende pouco, muito pouco, quase nada, de inglês. E fala ainda menos.)

Começa já dentro do avião, durante as onze horas de voo direto do Rio de Janeiro até Chicago. Vai com os olhos enfiados num tablet, tentando responder de modo razoável cada perguntinha de um aplicativo que promete ensinar qualquer língua falada no planeta (acendendo na tela uma luzinha verde quando o cara acerta, e um borrão vermelho com sirene de fábrica nas vezes que ele erra), desde que o aprendiz se comprometa a dedicar aos estudos algo entre dez e vinte minutinhos de seu dia, mas todos os dias. Fazendo as contas, é um curso em três níveis: iniciante, intermediário e avançado, mais extras; cada nível com seis estágios; cada estágio com vinte e quatro lições; mais os tais doze conteúdos extras. Então são exatas quatrocentas e quarenta e quatro etapas, respondidas em média de quinze minutos cada uma, portanto se a viagem durasse cento e doze horas seguidas esse nosso aprendiz desceria do avião na justa segurança da plena fluência.

Viajando a seu lado, uma tiazinha branca de casaco roxo. A coroa dizendo a comida que eles servem nesse voo é muito boa, te dou uma dica: escolhe a opção pasta. O Jônatas responde ãhan. O problema nesta aeronave são as chacoalhadas. Ãhan. E o frio?, você não tá sentindo frio, meu jovem? Ãhan. O meu genro trabalha nesta

companhia, ali meu genro, ele me trata melhor do que me trata a minha própria filha, cuida o tempo todo seu eu tô bem, se eu tomei os meus remédios, a gente tá aqui neste voo, mas tá indo pra Miami, Miami é muito bom, Chicago é que é frio demais, já fiquei várias vezes lá pelo saguão do O’Hare vendo as pessoas do lado de fora sofrendo com o vento, um povo todo encasacado, de gorro e de luva, de cachecol cobrindo a boca e o nariz, só com os olhinhos de fora, mas como é voando de graça a gente vai pra lá primeiro, coisa de escala de serviço, meu genro trabalha demais, a gente vai pra lá primeiro, depois a gente vai pra Atlanta, daí a minha filha pega a gente de carro no aeroporto e leva a gente pra Miami, Miami é bom demais, Miami é uma cidade quente, sabe como? Ãhan.

Jônatas embroma na saída do avião para ter a chance de abordar discretamente o comissário brasileiro. Um comissário gaúcho (não que tenha perguntado para ele tu, meu camarada, é gaúcho?, mas é sim, fala um português de Porto Alegre, a toda hora o piloto finlandês (ele mesmo que disse: desculpem, por favor, o meu inglês com esse sotaque do sul da Finlândia, eu sou de lá) passava ao microfone informações e logo vinha o comissário traduzindo tudo, ou quase tudo, não tinha como ter certeza, parecia um bom resumo dessas orientações), um comissário saudando os passageiros e agradecendo pela preferência, desejando a todos have a great day. Esse comissário garantindo que não ia ter problema algum, que a companhia destina um funcionário só para acompanhar o passageiro em todas as etapas a partir da aterrissagem, caso esse passageiro necessite, caso esse passageiro entenda lhufas do idioma local, que a companhia com certeza indicaria um funcionário que falasse português, se não pelo menos alguém que falasse espanhol – que é quase a mesma coisa –, que ficaria ao seu lado indicando para que lado ir assim que saindo do gate, traduzindo a série de perguntas do immigration agent, orientando a retirada da bagagem no claim, e ajudando a carregar essa bagagem, auxiliando com a sequência de procedimentos obrigatórios no Airport Security Area, que

com certeza ficaria tudo muito mais do que satisfatório. O comissário diz isso, pega sua maletinha e vai embora. Comentando alguma coisa e rindo muito dessa coisa com os colegas gringos.

Então que chega perto uma negra retinta de chapéu de porteiro e com colete chamativo lhe falando muita coisa muito rápido. O Jônatas faz uma sequência de sinais com as mãos que querendo dizer, e dizendo, uma frase ensaiada I’m sorry, I don’t speak English, I come from Brazil e tudo mais. A acompanhante negra de chapéu de porteiro e com colete chamativo arma-lhe um sorriso, tenta repetir alguma coisa da sequência de sinais e fala, dessa vez pausada e articuladamente, uma frase curta terminada em Éindjela. Éindjela? Yes, yes: Éindjela. Okay, Éindjela.

Ela vai à frente e ele atrás para logo se juntarem a um grupo de velhinhos brancos, alguns em cadeiras de rodas cedidas pela companhia aérea, cada velho branco com seu próprio acompanhante negro de chapéu de porteiro e com colete chamativo. Todos avançando por uns corredores estéreis, internos ao movimento geral do aeroporto, depois descendo dois andares pelo elevador, depois pegando um trem que leva até o Terminal Número Cinco, limpando os pontos de verificação de alfândega e de proteção de fronteiras dos Estados Unidos, conforme previsto no Guia de Transferência para Viajantes Internacionais. Um agente negro de uniforme cinza, de dentro de sua cabine envidraçada, se vira para Jônatas saudando how you doing today, sir?, e fazendo outras perguntas: sobre se o dia estava quente na saída do Brazil, sobre o motivo da viagem aos Estados Unidos, sobre quanto tempo pretende ficar pelo país, quanto dinheiro trouxe, sobre o tema desse evento nessa instituição timbrada em cabeçalho e rodapé de uma carta-convite anexada ao visto, sobre se Jônatas acha que vai ter condições de sair do aeroporto só com esse casaquinho. O agente negro de uniforme cinza confere umas informações

numa tela virada somente para si, e retira por trinta segundos seus óculos escuros só para conferir se o sujeito na foto ao passaporte é o mesmo sujeito que está ali de pé à sua frente.

(Existem diversos fatores que irão impactar no tempo gasto pelos passageiros para concluir o processo de imigração, mas na média não leva muito mais que duas horas.)

Éindjela ajudando o tempo todo, de alguma maneira traduzindo para o agente negro de uniforme cinza algo das informações solicitadas, de alguma maneira traduzindo para os demais acompanhantes negros de chapéu de porteiro e com coletes chamativos o que o brasileiro tentava dizer num inglês inventado, ela falando a toda hora com esses seus colegas que devia ser mentira que ele não falava inglês, imagina, para eles prestarem bastante atenção, eles pedindo para o Jônatas dizer obrigado, ele perguntando como?, fala obrigado, sir, fala obrigado, e ele falando obrigado, então eles rindo bastante, e dizendo em seguida very good, sir, very good, você fala um inglês muito bem, e depois disso rindo mais.

Éindjela talvez explicando que nem deve ser obrigatório, mas é uma espécie de praxe oferecer gorjeta. Que o tip é uma instituição nesse país. Que até vem nas notas fiscais de serviços prestados certas sugestões de valores para tips, dependendo do serviço prestado. Que o salário que eles pagam na América é baixo demais, o governo não tá nem aí pra nós trabalhadores de verdade, portanto só com tip mesmo pra tocar a vida, pra cobrir as despesas mais básicas da vida, you know? Que ela soube que na Europa é diferente, lá que eles até pagam bem, por isso os passageiros na Europa não têm o costume de dar tips. Que em Chicago um valor razoável seria mais ou menos cinco dólares, que assim não ficaria pesado para ninguém, que todos ficariam felizes, uma forma de justiça, um equilíbrio. Ele gesticula okay, okay, certeza que entendeu, só pede espere um minuto, por favor, que eu vou ao banheiro e volto rapidinho com seu tip, é rest room que fala? É, rest room.

Gasta mais tempo no banheiro do que imaginava porque sua barriga está num agito infernal; porque, antes, as cabines todas tinham gente dentro; porque queria aproveitar que estava, agora, numa dessas cabines para separar uma nota de dez dólares de dentro da pochete que ele traz o tempo todo por baixo da roupa, afinal de contas a Éindjela merece, se não fosse por ela certamente ele estaria ainda perdido tentando chegar ao terminal de imigração; porque ele precisava passar um perfume. Sai do banheiro e não encontra do lado de fora a acompanhante negra de chapéu de porteiro e com colete chamativo, só consegue concluir que o motivo é que Éindjela entendeu tudo errado, que ela saiu de lá praguejando contra brasileiro, que brasileiro é tudo metido a esperto, que ela já tinha tempo de janela o bastante para sacar dessas mutretas, que esse carioca é um tremendo de um son of a bitch.

Assim que estiver livre para abraçar as maravilhas de Chicago, e também, claro, se não pretender uma conexão para uma outra cidade, você tem diversas opções de transporte terrestre disponíveis: taxicabs, rideshare, vaivéns e o Airport Transit System para o transporte gratuito para a Chicago Transit Authority Blue Line. (A plataforma está localizada a um nível acima da sala de chegadas e é acessível através das escadas rolantes ou elevadores localizados fora das saídas.) Mas, ainda no Brasil, Jônatas achou por bem evitar qualquer dessas alternativas. Mais seguro reservar hotel por perto do aeroporto mesmo, algumas quadras apenas, percurso que faria a pé tranquilamente em menos de quarenta minutos, dispensando o sistema de transfer gratuito a partir da saída do O’Hare.

Jônatas é recebido por um funcionário negro meio velho usando um paletó com logotipo do hotel segurando para ele uma porta giratória e falando algo que talvez seja um bom dia, meu jovem, necessita de ajuda com essa mochila que parece bastante pesada? E Jônatas tentando dizer não senhor, muito obrigado, só preciso de ajuda na

recepção para fazer meu check in, já que I’m sorry, I don’t speak English, I come from Brazil e tudo mais.

Passa o resto da manhã, e a tarde, no quarto, até de noite. Na verdade, sem sair do quarto até no outro dia de manhã. Cochilando; zapeando os canais na tevê; tentando descobrir, sem sucesso, de que jeito, por diabos, funciona a cafeteira instalada em cima de uma cômoda e parece que é café de graça; acompanhando da janela o movimento dos locais na calçada; comendo os snacks e balas que guardou nos bolsos do casaco desde dentro do avião; bebendo da garrafa d’água que deram para ele ainda no check in, no desk.

Sua reserva não inclui o café da manhã, e também imagina que talvez já esteja seguro o bastante para explorar o quarteirão, então acaba que Jônatas sai. Cruza novamente com o funcionário negro meio velho usando um paletó com logotipo do hotel, que lhe arma um sorriso e que lhe diz, provavelmente, um vai pra a rua, meu jovem?, quer que eu lhe consiga um táxi?, eu não aconselharia contratar um uber, que até são mais baratos mas não sei não, pode ser perigoso, ainda mais pra um estrangeiro, entendo que você não queira por algum motivo utilizar nosso serviço de transfer, mas nós aqui temos algumas opções, quer que eu fale com os sírios?, eles prestam serviço de vallet pro hotel e conseguem rapidinho pra você uma limo, você precisa conhecer a Chicago Downtown, lá tem um comércio onde se vende de um tudo, tem a Magnificent Mile, tem uns prédios muito altos, tem uns parques, tem museus, uns bares de blues ou de jazz com shows de domingo a domingo, mas isso só se for pra logo mais, esses bares só abrem de noite, então, meu jovem, não quer? O Jônatas balança a cabeça como que dizendo não senhor, muito obrigado.

Ele chega na esquina do hotel e para, investigando à distância os prédios à esquerda e à direita, quem sabe por ali não consiga um café? Um negro de chapéu com

proteção para os ouvidos e de andador se aproxima de Jônatas com a mão estendida e olhando fixo nos olhos de Jônatas e falando muita coisa muito rápido. Jônatas arma-lhe um sorriso e diz I’m sorry, I don’t speak English, I come from Brazil e tudo mais. O negro de chapéu com proteção para os ouvidos e de andador recoloca a mão no bolso e se senta no andador, resmungando alguma coisa com um colega também negro e também de andador, ainda olhando fixo nos olhos de Jônatas, que aproveita o sinal ficando verde e meio que corre atravessando a rua.

Anda duas ou três quadras como quem caminha numa zona confortável. Ajeita a toda hora o gorro com pompom no cocuruto, e parece normal andar pelas calçadas protegendo a carapinha num gorro com pompom no cocuruto. Até que topa com a vitrine de uma loja onde se vendem livros e souvenires e cartões postais dizendo estive em Chicago e lembrei de você! Um senhor muito branco de avental segura para ele uma de duas portas pesadas com adesivos indicando que lá dentro se aceitam tanto animais de estimação quanto gente portando uma arma de fogo. O senhor muito branco de avental gesticulando alguma coisa como um entra logo, rapaz, senão vai virar picolé! E Jônatas entra. Fica feliz em constatar que o wifi dessa loja funciona de verdade, e que é de graça. Circula pelas prateleiras cobertas de títulos escritos em inglês, fingindo entender tanto esses títulos quanto as ofertas escritas em cartazes tipo leve três e pague apenas dois. Enquanto o senhor muito branco de avental fica sempre de longe acompanhando sua movimentação. E enquanto ele tenta descobrir pelo Google Translate como se pergunta vocês têm por aqui literatura brasileira? E enquanto tenta descobrir como se pede um coffee de tamanho médio e uma fatia também média de traditional american apple pie. O senhor muito branco de avental lhe armando um sorriso e lhe dizendo Brazil?!, oh, yes, yes, Brazil!, meu pai foi militar e viajou pelo mundo!, ele sempre dizia que o Rio de Janeiro wow!, o Rio é uma cidade por demais acolhedora! E dando uma piscada de olho

e falando um dia desses eu tiro umas férias dessa minha livraria e parto pra curtir o sol dessa sua cidade, não entende o que eu digo?, e essa nossa cidade, rapaz, você tá aproveitando? Ao que ele responde com uma expressão facial que escancara na hora sua ignorância absoluta sobre cada palavra que o senhor muito branco articulou.

O Jônatas ocupa uma mesinha de fundo enquanto bebe do copão de café tamanho médio e come a fatia de torta de maçã que serviria muito bem para saciar duas pessoas, com fones nos ouvidos, conferindo ao celular como foi cada jogo da rodada no Brasileirão, e vendo uma matéria do Globo Repórter sobre um remédio que desenvolveram a partir da extração da casca do Ipê do Pantanal, e assistindo aos últimos vídeos do Porta dos Fundos, mesmo sem saber com certeza se já tinha ou se não tinha assistido a todos deles, e acompanhando calado o entra-e-sai na livraria. Chega uma hora em que ele se levanta, veste seu casaco e resolve voltar para o hotel. No caminho, tenta desejar um boa-tarde ao negro de chapéu com proteção para os ouvidos e de andador, mas este não chega a lhe dar atenção.

Um dos sírios do vallet arma-lhe um sorriso e parece dizer amanhã vai nevar o dia todo, sir. E Jônatas gesticula um tudo bem, ainda tenho depois de amanhã pra visitar Downtown. E o sírio do vallet faz sinal em resposta perguntando por que não agora?, se você for esperar que faça um dia-bonito-de-calor-sem-vento por aqui pra fazer um passeio, ou pra se encontrar com os amigos e jogar conversa fora, ou até pra trabalhar, aí você vai ter que esperar que chegue o fim do mês de julho, pelo menos.

Já no desk, a recepcionista ruiva cujo nome é impossível de pronunciar (devido a um encontro quase só consonantal na tarjeta de seu uniforme) lhe arma um sorriso e é bem provável que esteja dizendo, entre outras muitas coisas, boa tarde, Mr. Djônathan, sabia que o nome do meio de um de meus irmãos também é Djônathan?, eu tenho pro senhor esses recados da University of Chicago, go cats!, ligaram pra cá duas dúzias de

vezes, por acaso o senhor tá sabendo que amanhã na cidade com certeza vai nevar? O Jônatas balança a cabeça para um lado e para o outro e para cima e para baixo, sem deixar muito claro se ele faz ou se não faz noção de porcentagem das informações prestadas, e também sem se dar ao trabalho de levar consigo o bloquinho com os recados.

Gira a maçaneta da porta sem aquele aviso não perturbe pendurado só para descobrir que, diferentemente dos hotéis das novelas e dos filmes, o quarto está tão bagunçado quanto estava lá pela manhã, quando saiu para procurar um café. Uma camareira queniana, ao fim do corredor, lhe grita housekeeeeping!, apontando ao mesmo tempo um formulário próprio onde se poderia ler que é política do hotel que os quartos sejam arrumados apenas de três em três dias, exceto se solicitado pelo hóspede que façam uma arrumação antes disso. Ela meio que esperando uma resposta dele e meio que torcendo para que ele entre logo nesse quarto de uma vez.

Escureceu já faz um tempo, e nessa cidade, nessa época do ano, o sol não se põe nada cedo. Apesar disso a biblioteca pública, que fica de frente para janela de Jônatas no hotel, segue com as luzes acesas. Tem sido assim pelo menos desde ontem, que foi um domingo. A toda hora ele vai à janela para checar, mas as luzes de lá não se apagam. Resolve descer até a portaria (tinha até pensado em ligar no ramal da recepção perguntando por que a biblioteca pública municipal fica aberta direto, só que seu inglês não iria tão longe), um dos sírios do vallet se levanta de um banquinho assoprando as mãos em concha e depois esfregando uma na outra, ele faz um meneio de cabeça e segura aberta a porta da rua para Jônatas, que em seguida atravessa essa rua em direção à tal biblioteca. Lá dentro, vê apenas umas boas dezenas de estantes lotadas de livros; uns seis ou sete negros (sem boné e sem gorro e sem luva) dormindo sentados num banco comprido apoiado numa das paredes; e um atendente, cotovelo no balcão, conversando ao celular num idioma totalmente indecifrável, que interrompe a conversa sem tirar do

ouvido o celular quando Jônatas se aproxima perguntando alguma coisa parecida com um vocês têm por aqui literatura brasileira?

Agora da calçada, avista um desses Burger King vinte e quatro horas. Dentro, tira as luvas, o gorro de pompom no cocuruto, o casaco, e os deixa sobre uma das mesas. O lugar só não está completamente vazio porque tem três homens negros dormindo sentados num sofá de canto (pensa que um deles pode bem ser o homem negro de chapéu com proteção para os ouvidos e de andador que o abordou na esquina – perto dos homens, tem dois andadores dobrados –, mas não é certeza). Uma atendente negra de uniforme Burger King completo se vira para o Jônatas dizendo muita coisa muito rápido e ele avisa I’m sorry, I don’t speak English, I come from Brazil e tudo mais. A atendente negra de uniforme Burger King dá um grito para alguém na cozinha e logo chega um colega atendente Burger King falando espanhol. Eu não sou cubano, eu falo português, eu não tô te entendendo, meu amigo. E o atendente latino Burger King repetindo muita coisa ainda muito rápido. Jônatas aponta para o combo de número três, destacado na parede, só que sem porção extra de bacon, sem batata frita extra, com o copo de refrigerante menor que tiver. O refrigerante é de refil: tu vai ali naquela máquina ó, escolhe o refrigerante que quiser, apertando o botão correspondente, e depois encosta o copo na parte do fundo da máquina que aí cai gelo dentro. Acabou que Jônatas se enrolou com as orientações, não tinha entendido era nada, e deixa cair pelo chão da lanchonete quase todos desses cubos de gelo.

No caminho de volta para o hotel, Jônatas percebe que já está amanhecendo. E que já está nevando. Fica estacado não tem como saber quanto tempo só sentindo a neve que lhe cai na cara. Juntando uns punhados de neve do chão e fazendo umas bolas de neve com a luva. Lambendo essas bolas de neve para saber de que sabor.

dos sírios do vallet é o velho bigodudo Benjamin. Ele agora puxa Jônatas e diz, de um jeito que não dá para recusar, vamos vamos, jovem. Voce precisa urgentemente de um cafe tamanho grande, vamos vamos. Jônatas imagina que já está pegando o jeito do inglês – finalmente –, o idioma sendo assimilado pelo ouvido, de tanto escutar as pessoas falando o inglês, ele já conseguindo compreender bastante coisa. Daí o velho bigodudo Benjamin lhe estende uma caneca de café e lhe pergunta o que me diz? Ainda consigo falar bem o brasileiro, nao? E que eu lutei a guerra. Um de meus melhores amigos em guerra era o Orlando Salvador. O nome Orlando, a cidade Salvador. O Orlando jogava demais bem o soccer, depois ele morreu. Voce nao joga o soccer, jovem? Assim tao parecido com o Neymar que nem voce, so mais pretinho, voce devia jogar bem o soccer. O Pele. O Falcao. O Romahrio. Em aqui eles puff pro soccer. Eles nem ligam, mas eu gosto. Jogava o soccer em guerra com o Orlando Salvador em meu time, era assim sempre sempre. Passei cinco anos em Iraque. Fui pra la fardado pra interprete de arabe. Mas quando voltei o governo em aqui fez um puff pra mim. E puff pra minha mulher. E pra meus filhos, puff. Governo de aqui nao viu pra mim nem pensao. Nao viu emprego nem pra mim sustentar mulher nem filhos. Por isso nao quero saber de politico. Nunca mais votei pra presidente. Quero mais que o presidente puff.

Entra na salinha dos sírios do vallet um outro sírio, falando com o velho bigodudo Benjamin numas frases compridas, lá na língua deles. O velho bigodudo Benjamin traduz para Jônatas o meu amigo pergunta se voce volta mesmo amanha pra Brasil. O Jônatas responde sim, mas bem de noite. O velho bigodudo Benjamin faz puff para seu conterrâneo e se volta para o Jônatas dizendo que pena. Meu amigo amanha ta de folga. Podia bem bem te ajudar com bagagens. E Jônatas é, que pena mesmo.

Se afasta do hotel em distância bastante para não ser observado por nenhum dos recepcionistas, logo mais pode pensar numa desculpa caso haja mais recados do evento

no College of Arts. Passa por um ponto de táxi, com dois carros parados com os motoristas dentro. Fica sentado num banco de rua mais ou menos uma meia hora, esse banco com uma cobertura que protege bem da neve. Até que se levanta e chega no primeiro táxi, com umas batidinhas na janela do carona, perguntando ao motorista talvez coreano algo que acredita ser um boa tarde, meu parceiro, quanto custaria pra tu me levar até Downtown, na área mais próxima daqui, mas em Downtown?, isso num suposto-inglês-de-personagem-de-filme-do-Spike-Lee. O motorista talvez coreano não chega a tentar responder a pergunta de Jônatas, ou ele mal chega a olhar na direção de Jônatas, e não há como saber dali qual dos dois fala menos inglês. Jônatas de toda forma agradece ao motorista e se dirige à janela do carona do outro táxi, estacionado logo atrás desse primeiro. O motorista que tem toda pinta de indiano é outro que mal chega a olhar na direção de Jônatas, apenas abre uma frestinha na janela e lhe estica uma nota de dólar. Que Jônatas pega, coloca no bolso e vai embora.

Percebe que seguindo a pé nessa mesma direção, acabará chegando ao terminal de embarque internacional do O’Hare. Ajeita seu gorro com pompom no cocuruto, seu cachecol, suas luvas, ajeita seu casaco e segue em frente.

Uma hora e meia depois, já no quentinho do saguão do aeroporto, Jônatas vai caminhando e olhando para todos ao redor, de terminal em terminal até chegar ao Terminal Número Cinco. Procura um banheiro, uma cabine de banheiro, e entra. Separa uma nota de dez de dentro da pochete que ele traz o tempo todo por baixo da roupa. Sai do banheiro e se senta num banco observando o movimento, a nota de dólar na mão. Algum tempo depois passa por ele certa negra de chapéu de porteiro e com colete chamativo. Ele meio que grita Éindjela?! Ela se vira e começa a falar muita coisa muito rápido. Jônatas faz uma sequência de sinais com as mãos que querendo dizer, e dizendo, I’m sorry, I don’t speak English, I come from Brazil e tudo mais.


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O AUTOR


Carlos Eduardo Pereira nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1973. É autor de “Enquanto os dentes”, romance publicado em 2017 pela editora Todavia.

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