• Capitolina Revista

Carla Bessa resenha Terra Dentro, de Vanessa Vascouto

Uma saga familiar em três vozes contrapostas





Com prosa densa e sinestésica, Vanessa Vascouto reconstrói a atmosfera eletrizante de uma tragédia anunciada


terra dentro

De Vanessa Vascouto

Editora Reformatório

96 páginas


Carla Bessa | Berlim


– O inferno são os outros – diz Garcin, personagem da peça “Entre quatro paredes”, de Jean Paul Sartre. Na obra de um ato, que é interpretada como o “drama da existência humana” três pessoas mortas vão parar no inferno, cada um carregando uma culpa a qual não querem confessar nem para si. Confinados numa sala sem espelhos, os três são obrigados a se ver através dos olhos dos outros. Expostos em suas falhas, acabam chegando à conclusão formulada finalmente por Garcin: o inferno são os outros.


Em Terra dentro, de Vanessa Vascouto, a história também é narrada por três personagens, Rita, Mirna e Mosquito, confinados não numa sala, mas no inferno árido e abrutalhado de uma plantação de batatas em algum interior do Brasil, onde sete famílias vivem aglomeradas num terreno emprestado do dono da plantação. Com uma prosa extremamente densa e sinestésica, Vanessa reconstrói a atmosfera eletrizante de uma tragédia anunciada. Aqui, uma fatalidade é contada através dos depoimentos alternados de três irmãos que conversam com interlocutores invisíveis. Aos poucos, cada um debulha sua própria versão dos fatos e a dor emerge com força tanto maior quanto mais se ouve o silêncio pulsante das entrelinhas ou os ruídos que cadenciam as suas narrações – gotas, risos, passos – como o tique-taque de uma bomba-relógio.


Começamos com Rita. Ela “conta o tempo numa goteira” que “pinga como a memória” e dá as primeiras pinceladas no retrato do cotidiano embotado de uma família que se desmantelou: mãe, pai, irmão, duas irmãs. Cinco existências enfurnadas num cenário onde só o que há em excesso é a falta, um espaço sufocante onde as pessoas vivem “tão juntas que dava pra ouvir o Nito comer banana sem os dentes duas paredes pra lá”. A mãe alcóolatra – que “nunca foi minha nem mãe” – é tudo menos amparo e acaba caída bêbada e colhida pelo pai feito uma batata. No meio do desolamento, o amor oferece abrigo: “naquele batatal eu conheci o Maridinho e nunca mais larguei, porque achar quem é seu nessa vida é sorte e eu sempre soube e ele também.”


Rita é, dos três, a personagem mais despedaçada e, ao mesmo tempo, a mais íntegra, e isso se reflete não só na linguagem poética fatiada de seu relato, mas também na tipografia: os seus monólogos são alinhados à margem direita, ou seja, contra o fluxo da leitura, um recurso que acompanha de forma sutil o deslocamento emocional da personagem.


Segue-se um relato de Mirna, que continua a narração dos fatos. Ela acrescenta mais uma peça na reconstrução do conflito enquanto “ri entre lençóis” à espera do amante, mas renega as relações amorosas, formulando sua própria versão do inferno sartriano: “gente taí é pra ser impiastro um do outro.”


Depois, ouvimos Mosquito, agente central na tragédia de um amor impossível que será remontada, episódio por episódio, ao decorrer do livro. Mosquito ama sua vizinha, Rosa, e deseja viver com ela no céu, bem acima do caquizeiro ao pé do qual eles se encontram às escondidas, o “seu” caquizeiro.

Deitado reto eu via debaixo pra cima um céu rachado de galho. Eu queria morar naquele chãozão de azul, eu e você, ver de lá de cima que mais da

metade do ano o diacho do caquizeiro não passava de um pé de pássaro. Dava nem folha nem caqui até o verão. Caqui tem valor, Rosa, não é que nem batata que dá o ano inteiro e nunca perde nem folha nem nada

nada, sempre viva, raiz maldita.


Mosquito odeia o lugar onde vivem e adora odiar e odeia tanto que quer ficar para sempre. Para lutar contra a terra vermelha que fica pegada às unhas e não sai, como o ódio. Para falar do ódio e repetir tantas vezes até que a fala se materialize ou vire outra coisa.


De tanto que a gente repete a mesma coisa essa coisa vem e acontece, ou acontece do avesso, só de raiva.


E voltamos para Rita e para Mirna e de novo para Mosquito. A história segue de uma voz à outra, mudando levemente de textura a cada retomada. O mosaico da trama vai sendo montado com os fragmentos das lembranças dos três personagens, mas as peças não se encaixam de fato, pois como sabemos, a memória é manipulável e já nasce alinhada ao desejo de edição. A despeito disso, o enredo permanece pungente e ganha ainda maior dinamismo com esta composição de relatos sobrepostos.


No entanto, o ponto forte do livro está, sem dúvida alguma, na linguagem. Na live de lançamento, a autora conta que experimentou com diversos gêneros – poesia, peça de teatro – antes de fixar a narrativa em forma de prosa. Creio que as escapadas literárias só fortaleceram esta história, criando uma caligrafia elíptica, dramática e instigante, que prende a atenção da primeira à última frase.


No final, o leitor se vê diante de uma saga familiar em formato semelhante à uma fuga musical narrada por três vozes em contraponto que formam um todo díssono, mas coerente, através do qual se perscruta a verdadeira tragédia: a da impossibilidade de apontar um culpado, já que todos são vítimas. Não de suas opções, como em Sartre, mas da falta delas. Ou como diz Mirna em um dos seus relatos: “Teve a seca e depois a praga murchadeira. A gente também virou praga um do outro.”


A AUTORA

Vanessa Vascouto é autora do romance Água fria e Areia (Lamparina Luminosa, 2018), da peça teatral A maior distância entre dois pontos (SESI-SP Editora, 2019) e do infantojuvenil A Árvore e a Nãna (finalista do Prêmio Barco A Vapor 2018).

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