• Capitolina Revista

Carla Bessa resenha Micheliny Verunschk



ODE AO CETICISMO


A trilogia infernal

Micheliny Verunschk

Editora Patuá


Porque é preciso duvidar das falas, mas também dos silêncios

Por: Carla Bessa | Berlim

Não é fácil definir o mal. Também não há consenso entre os pensadores das diferentes disciplinas no que ele consiste nem qual é a sua função. Para Kant, o mal é uma parte essencial da natureza humana, uma vez que o homem não só é dotado de razão, mas também de necessidades inteiramente mundanas, como se a inclinação para o “obscuro” fizesse parte de nossa constituição. Hanna Ahrend defendia que o mal não era natural, mas um artifício histórico e político, produzido por homens e que se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso - em razão de uma escolha política. Já Rousseau propõe que o ser humano é bom desde o nascimento e só a vida na comunidade o envenena, faz dele mau.

Nascemos maus ou a sociedade nos torna maus?

Independentemente de sua definição, parece incontestável a inevitabilidade do mal enquanto polo oposto ao bem na formação de todo humano. Fato é que esses dois fenômenos são indissociáveis e aparecem numa relação complementar, autoalimentando-se mutuamente como num Pepetuum mobile.

A Trilogia Infernal, de Micheliny Verunschk, composta pelos volumes “Aqui, no coração do inferno”, “O peso do coração de um homem” e “O amor, esse obstáculo”, publicada pela editora Patuá, parece traçar um arco em torno das diferentes manifestações do mal, indo desde a violência doméstica e bestial à violência institucional que tomou conta do Brasil durante a ditadura militar que torturava e matava os cidadãos opositores ao regime.



A trilogia aborda sobretudo o tema dos “desaparecidos” políticos e as diferenças abissais de realidade entre campo e cidade, trazendo à tona diversos países dentro de uma só nação. Ela pinta o quadro arcaico de um Brasil longe das zonas urbanas, com famílias vivendo numa precariedade tal que crianças nem chegam a ter nomes ou são amarradas em pilastras na cozinha da casa dos delegados locais, feito animais.

O primeiro livro, “Aqui, no coração do inferno”, é narrado quase na íntegra pela protagonista Laura ainda criança, que, para ordenar as suas experiências e numa tentativa de resgatar a memória de sua mãe, morta em circunstâncias obscuras, já cedo descobre os instrumentos da pesquisa e da escrita como uma maneira de quebrar o silêncio imposto tanto dentro dos limites do doméstico como do país. Ela é uma menina que vive com a irmã e a madrasta sob o jugo de um pai autoritário, um delegado de polícia a quem ela chama de xerife e de quem descobrirá depois que esteve a serviço da tortura durante a ditadura militar. Aqui, a biografia pessoal da personagem se confunde com a história do país. Neste primeiro volume, Verunschk baliza o terreno para o desdobramento de uma narrativa multifacetada e tortuosa que contará de maneira original, em recuos e avanços e por meio de um interessante jogo de perspectivas, os meandros das sagas de famílias marcadas pela opressão e pelo silêncio.

O segundo livro, “O peso do coração de um homem”, é contado a partir da perspectiva de Cristovão, o menino que se encontra preso na cozinha de Laura no primeiro livro. Este volume, que me pareceu o mais impactante em termos de linguagem, com descrição altamente poética dos diferentes cenários reais e psicológicos, já abre com uma cena de forte apelo iconoclasta: a casa da família de Cristovão é assaltada por um grupo de matadores que degola a sua mãe na sua frente e prende o pai a uma árvore, deixando-o lá para morrer à míngua. Os bárbaros ainda levam consigo os dois filhos do casal. A imagem do mundo se cobrindo de vermelho, em contraste com os cabelos brancos da chefe do bando, “cabelos que rodopiavam”, faz pensar na cena de um massacre como num daqueles quadros excruciantes de Goya da séria “Os desastres da guerra”. Dos três volumes, este é o que mais esmiúça a questão do mal em si, abordando-o de forma diferenciada ao fazer-nos entender as motivações do menino canibal.

No terceiro volume, “O amor, esse obstáculo”, de caráter mais diretamente político, voltamos à perspectiva da menina Laura, agora adulta. Após a morte do pai, a personagem tem acesso a arquivos abertos pela Comissão Nacional da Verdade e se encontra com membros de famílias de desaparecidos. Ela resolve então escrever o livro – esse mesmo que estamos lendo, tematizando assim também o papel purificador da escrita – como maneira de lidar com a perda da própria mãe e purgar os traumas pessoais e coletivos. Aqui a história foca na busca pela verdade, o tom é mais protocolar, mesclando, inclusive, passagens com listas de nomes e datas de nascimento de desaparecidos ou pequenas biografias das vítimas da repressão da ditadura militar. Esta obra final encerra a trilogia de maneira congruente, sublinhando a importância do resgate da memória coletiva como forma de apaziguamento com a própria biografia.

E você, vai continuar mexendo naquilo?

Silenciei, inspirei o ar devagar e profundamente, como se com isso pudesse recobrar meu próprio eixo.

No passado, você diz?

É, no que papai fez.

É o que faço desde os doze anos, eu respondi, sorrindo tristemente.”

Esta última obra torna patente que a busca pela verdade é a busca pela junção das peças soltas da identidade pessoal e coletiva, fechando o círculo iniciado lá no primeiro volume e fazendo dessa trilogia sobretudo uma ode ao ceticismo. Pois desde o início, é a curiosidade e a descrença da menina Laura, intuindo a mentira disfarçada de omissão, que a leva a fuxicar tanto as gavetas e malas do pai como, mais tarde, já adulta, os arquivos e documentos de época. Porque é preciso duvidar das falas, mas também dos silêncios, e dar voz ao trauma causado pelo “não dito” para possibilitar enfim a sua superação.

Sobre a autora

Micheliny Verunschk recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura 2015, com o romance Nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida, na categoria melhor romance de 2015 - autor estreante acima de 40 anos. O romance Aqui, no coração do inferno foi finalista do Prêmio Rio de Literatura e o romance O peso do coração de um homem finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018.

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