• Capitolina Revista

Carla Bessa resenha Marcela Dantés



À ESPERA DO FIM


O primeiro romance de Marcela Dantés descreve acerto de contas e reconciliação com a vida no momento da partida


Nem sinal de asas

De Marcela Dantés

Editora Patuá

233 páginas


Carla Bessa | Berlim


Anja está morrendo e está sozinha. Ela “morrerá como viveu: sem precisar de ninguém”. Na grande reclusão voluntária que foi a sua vida, a morte figura como o ápice de um projeto de desaparecimento. Anja encena o seu fim como se dirigisse o espetáculo da própria morte. Ela está com um câncer em fase terminal e, tendo providenciado todo o necessário para não ter mais que sair do apartamento, espera. E enquanto espera, passa em revista os seus quarenta e um anos, dois meses e alguns dias.


Anja Santiago nasceu prematura e “pretinha como o pai”, para desgosto da mãe, Dulce, uma das personagens mais complexas do livro. Dulce é uma mulher branca que se apaixona perdidamente por Francisco, um homem negro, e espera que da mistura resulte uma criança “parda”, com ares de quem “está constantemente bronzeada”. Se, por um lado, ela personifica o racismo estrutural da sociedade brasileira, a ponto de atos dolorosos e absurdos como, por exemplo, passar suco de limão no corpo da filha para que esta fique menos preta, por outro lado, ela não o faz pelo prazer sádico em requintes de crueldade, mas por ignorância – e até mesmo por amor! Ou o que ela entende por isso. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, Dulce enfiará a criança em roupas justas, engomadas e duras, e em sapatos

apertados e desconfortáveis que impedem a circulação adequada do sangue nas canelas, para que a menina pareça sempre bonita e com aspecto de rica. Assim, Anja cresce em constante conflito com o próprio corpo, o território onde trava as suas silenciosas batalhas até a morte.


Apesar dos pesares, Anja consegue crescer e terminar uma formação de enfermeira. Alguns poucos amigos cruzam o seu caminho, e essas amizades sempre se edificam sobre a cumplicidade na exclusão. Ouvimos de Adriano, um menino obeso e seu único amiguinho de infância, um quase amor. E há também Helena, uma amiga da faculdade, onde as duas “eram as únicas ali que não pareciam ter vindo de uma mesma fôrma”. Há o menino Afonso que mora no mesmo prédio onde Anja agora espera pela morte, e há, sobretudo, Rinoceronte, o gato, companheiro que fica com ela até, um belo dia, amanhecer sem vida. Outros poucos encontros fortuitos arrancam Anja de sua solidão voluntária e ela se surpreende com o próprio desejo de troca. É o que acontece, por exemplo, quando da visita inesperada de uma estudante de jornalismo que pretende investigar as histórias escondidas nos corredores do Edifício Hotel Lucas, o lugar para onde Anja se muda ao sair da casa da mãe, sem levar nada “sem caminhão, sem plástico-bolha, sem poeira e sem objetos perdidos e depois encontrados para ressuscitar memórias que deveriam continuar mortas.“ Ou Eduardo, um morador com quem Anja esbarra no meio da noite, no jardim do prédio, quando vai enterrar o gato às escondidas. Nestas ocasiões, paradoxalmente, a alegria insuspeita causada pelo contato humano parece reforçar a melancolia de Anja, como se ela só percebesse a medida de sua carência no momento em que esta é temporariamente suprida.


E há Ramiro, o porteiro, com quem ela se vê unida pela violência de uma intimidade não desejada, uma pessoa que ela evita o quanto pode, mas que será o único a permanecer ligado a ela para além da morte.


Um dos capítulos mais marcantes do livro descreve um embate crucial e traumático entre os dois, presos no elevador, durante uma queda de energia

elétrica. Toda a cena é construída com precisão cirúrgica, acompanhando o ritmo da respiração de Anja, que se acelera proporcionalmente ao seu medo. Ao mesmo tempo em que este artifício gera um suspense crescente, ele desvela o voyerismo do leitor que se identifica tanto com Anja quanto com Ramiro, degustando de fora a emboscada.


“Mulher é encontrada mumificada em apartamento cinco anos após sua morte”. Desta manchete do jornal El País, de 14 de julho de 2017, foi que Marcela Dantés tirou a ideia para este livro a um tempo contido e eloquente, que comove na mesma medida que nos faz refletir sobre como vivemos e o que deixamos. A autora mineira reconstrói esta história inacreditável, mas verídica, da perspectiva de um narrador onisciente e utilizando-se de um discurso indireto livre, no qual os pensamentos de Anja e Ramiro se alternam e se sobrepõem enquanto a protagonista espera pela morte, a caprichosa, que não se apressa em chegar. Assim, todo o livro se revela uma longa e dolorosa despedida, mas também acerto de contas e reconciliação com a vida no momento da partida.


“O silêncio é tão imenso que ela escuta o coração bater. No mesmo ritmo de sempre.

Ela abre os olhos.

Ela fecha os olhos.

Ela abre os olhos outra vez e suspende o pescoço, só o suficiente para ver o mundo em volta. É escuro, ela precisa esperar que os olhos se acostumem (será que ela tem tempo?). Ela abaixa o pescoço até que isso aconteça.

E levanta outra vez (sim).

Tudo em ordem, a casa limpa, o corpo não, mas foi o melhor que ela pôde fazer.

Anja fez exatamente o melhor que pôde, todos os dias.”



A AUTORA

Marcela Dantés nasceu em Belo Horizonte, em 1986. Estudou Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais e é pós-graudada em Processos Criativos em Palavra e Imagem, pela PUC Minas. Pela PUC Rio Grande do Sul, cursou a Oficina de Escrita Criativa de Luiz Antônio de Assis Brasil. É autora da coletânea de contos “Sobre pessoas normais” (2016), obra semifinalista do Prêmio Oceanos 2017. Em 2016, foi a autora residente do FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal. “Nem sinal de asas” é seu primeiro romance

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