• Capitolina Revista

Carla Bessa resenha Mário Araújo

ENTRE A GRATIDÃO E O ANSEIO DE LIBERDADE



Em “Breu”, de Mário Araújo, as personagens tornam-se reféns dos confortos familiares




Breu

De Mário Araújo

Editora: Faria e Silva

250 páginas



Carla Bessa | Berlim


Um grupo de crianças está reunido num canto e há uma criança isolada em outro. Estamos numa cerimônia de casamento, vemos a noiva descer correndo as escadas da igreja e embarcar num Aero Willys (e caso a data assinalada no início do capítulo nos tenha passado despercebida, temos aqui um leve aceno para a ambientação temporal em que a história terá seu início), a caminho do salão de festas. Esta é a cena de abertura de “Breu”, primeiro romance de Mário Araújo, autor condecorado com o Prêmio Jabuti em 2006 na categoria conto. Já nas primeiras linhas, o leitor se vê diante de uma escrita fluida e fortemente imagética, rica em detalhes, que prima pela acribia na descrição de pessoas e lugares. Porém, logo se percebe que estas não são descrições meramente ilustrativas do que é visível no ambiente exterior, mas o espelhamento da invisível vida interior das personagens. Por exemplo, quando vemos o grupo de crianças na escada e a outra criança – Úrsula, ela se chama – à parte, e em seguida, quando esta vai sozinha com os tios num carro e as outras juntas em outro, todo o cenário é composto de forma a evidenciar o complexo mecanismo de (auto)exclusão de Úrsula, sem que seja necessário evidenciar esta condição com palavras.

O mesmo se dá com a descrição da festa que se segue ao casamento na igreja: a fachada de elegância mal encobre a opressão contida por baixo dos panos (ou talvez devesse dizer: dos vestidos pomposos?), nenhum afeto parece espontâneo entre os movimentos estudados e o estar reunido sob a liderança dos tios.


Olhando-se com cuidado, nota-se que a própria escolha do matrimônio como imagem de abertura dessa história revela-se um artifício para introduzir a leitora/ o leitor nos enredamentos e ambiguidades do mote central: as graças e desgraças da convivência doméstica.


Consequentemente, seguimos o relato dessa epopeia familiar com Edna em pleno trabalho de parto, um ano mais tarde, em julho de 1964 – ou seja, durante a instalação do golpe militar. O autor traça sutilmente os contornos da situação precária de uma classe média, dentro da qual a vulnerabilidade econômica acaba gerando relações de interdependências tanto financeiras quanto emocionais. Por exemplo, os recém-casados se veem forçados a ter que continuar morando na casa dos pais da noiva, e esses por sua vez se veem obrigados a ajudar o casal.


Damos um salto no tempo e caímos em 2006, mas logo se vê que a instabilidade é passada de pai para filho, pois acompanhamos Olívia, uma geração mais tarde, em seus esforços para sair da camada social a que pertence. E também ela está dividida entre a gratidão e a vontade de abandonar a casa parental, onde se vê coagida a viver, assim como já antes ocorreu com sua mãe e sua avó. Os laços familiares dão apoio, mas também ceifam a liberdade.


É em torno deste dilema que girarão também os relatos seguintes, como variações do tema central. Algumas páginas mais tarde, cairá uma frase que define bem a essência do conflito aqui retratado. É o momento em que o narrador descreve a opinião de Úrsula sobre a prima, Aline, durante uma visita à tia:


“Desceu a calçada até os fundos pensando em Aline, eternamente refém dos confortos familiares, que nunca a deixariam ser uma mulher independente.”


De uma forma ou de outra, e cada uma à maneira que lhe cabe, todas as mulheres deste romance estão presas – e não só por questões financeiras – a um ideal de realização pessoal no papel de mãe e esposa, nem que seja através da negação deste ideal, como é, por vezes, o caso de Úrsula. Junte-se a isso o atenuante da dor da perda de um filho, sina que parece perseguir as personagens de geração a geração como uma sombra, e as mulheres não conseguem sair do círculo vicioso de casamento-maternidade-perda-resignação, que faz com que elas só encontrem conforto no sistema que as oprime: a família. Sua única válvula de escape é a rivalidade dissimulada em preocupação, a busca de afirmação disfarçada de altruísmo e o permanente acerto de contas com as próprias biografias em forma de longos monólogos interiores no breu do embate com o destino.


Curiosamente, a última resenha que escrevi aqui – sobre o livro Terra dividida, de Eltânia André – também tratava do dilema da pertença a um coletivo que, se por um lado, oferece amparo para o indivíduo, por outro, impõe a ele limites e constrangimentos. Agora, eu me pergunto se essa recorrência temática seria coincidência ou um posicionamento dos autores, num momento em que a ascensão de movimentos de extrema-direita se apropria do conceito de família para justificar suas campanhas reacionárias contra as formas diversas de união matrimonial.


No final do primeiro capítulo, acompanhamos o narrador no relato dos pensamentos de Úrsula, pouco antes de ela adormecer na casa do tio, após a cena inaugural do casamento. Em seus devaneios, ela revisita outra cena ocorrida no seio da família: um enterro, do qual ela não conseguia lembrar-se de quem era:


“Só restaram na sua memória os parentes, chegando de todos os lugares, apertando-se num abraço sem fim, como que para estancar algo que estava se esvaindo. Ela se sentiu reconfortada. Eram mais estreitos aqueles abraços e mais intensas as demonstrações de afeto do que as que ela vira na festa. Talvez tivesse preferido ir a um enterro. Sim, um enterro era o lugar para ver coisas que não eram vistas no dia a dia.”


A confrontação destes dois polos aparentemente opostos – casamento e enterro – revela muito sobre a função da família na nossa sociedade: ela representa, sobretudo, o último apoio. Ter alguém para estar ao nosso lado no momento da partida final e para continuar a vida em nosso nome. É tão somente por este derradeiro abrigo que suportamos tanto tolhimento.


O AUTOR


Mário Araújo nasceu em Curitiba-PR. Publicou os livros de contos A hora extrema – prêmio Jabuti em 2006 – e Restos. Tem contos publicados em revistas e antologias na Alemanha, Espanha, Finlândia, EUA e México. Além de escritor é diplomata de carreira, morando atualmente em Xangai.

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