• Capitolina Revista

Carla Bessa resenha

O espetáculo da ausência, de Ney Anderson




Ausência enquanto possibilidade


Em O espetáculo da ausência, de Ney Anderson, os personagens protagonizam o próprio alheamento


O espetáculo da ausência

De Ney Anderson

Editora Patuá

177 páginas


Carla Bessa | Berlim


Em geral, a ausência de alguém ou de algo se manifesta pela falta desse alguém ou algo. E se falamos dessa falta é para preencher o vazio deixado por este sentimento com palavras, para sublimar uma carência, habitualmente angustiante, por meio de imaginação ou lembrança. Mas há uma forma especialmente dolorosa da ausência: é a que se impõe justamente pela proximidade do objeto do desejo, que está ao alcance das mãos, mas nos parece inadmissível tocá-lo. Os contos do livro de Ney Anderson, “O espetáculo da ausência” (editora Patuá), abordam, em sua maioria, este último tipo de ausência, com personagens que protagonizam, sobretudo, o seu próprio alheamento. São trinta e três narrativas curtas que apresentam inflexões do tema da ausência, focando preferencialmente em formas de declinar o recalque, a opressão do desejo. Suas figuras solitárias parecem sentir falta daquilo com o que mais se identificam, mas não se permitem viver abertamente. Assim, elas erram pelas ruas do Recife, como se rondassem em torno do centro de si mesmas, satisfazendo suas fantasias às pressas e às escondidas, em becos escuros ou na calada da noite, onde a máscara cotidiana se ausenta na anonimidade do espaço urbano. Paradoxalmente, é no lugar do oculto que se desvenda a sua verdadeira face, funcionando como o espelho de um dos contos: “o último a ver o rosto”.

Não é à toa que o protagonista recorrente em várias histórias seja um escritor, essa figura que, no fundo, também não passa de um expurgador, alguém que vive por intermédio de suas criações.


Temos, por exemplo, um padre que se encontra às escondidas com um michê e, de lá, segue para celebrar a missa. Ou a mulher viciada em remédios que constata tarde demais a total alienação de si mesma, pois “ela é o que se tornou ou que a fizeram se tornar.” E temos os já citados literatos que se confundem de tal forma com suas obras que, por vezes, realidade e ficção já não se distinguem e uns se dissolvem nos outros. Como no conto “A morte nunca tem nome” onde um autor aparece morto após descrever a cena do próprio assassinato. No jornal, lê-se a notícia: “De acordo com o agente literário, o último romance do escritor morto era uma nova forma narrativa. Algo inédito. O hiper-realismo. Quando a ficção ultrapassa a imaginação e se sobrepõe a realidade.”


E há também alguns instigantes momentos de sobreposição de camadas temporais, como no conto “Neon horizontal”, no qual uma personagem visita seu pai no leito de morte de um hospital. No momento da despedida, onde memória e vivência se justapõem, é o próprio presente que se ausenta. Fica o tempo suspenso no “vazio que surge com o fim”:


O médico vai me perguntar se quero a autópsia para saber a causa exata da morte. Não precisa, eu irei dizer. Olharei novamente para a sala, onde as mulheres esperam a ordem para os procedimentos padrões. O médico irá fazer um sinal positivo e elas rapidamente começarão a colocar chumaços de algodão na boca, nariz e ouvidos. Em seguida enrolarão o corpo com um lençol branco. O médico, que também é o diretor do centro de saúde, me entregará uma prancheta com alguns papéis para eu assinar a liberação do corpo. Só então me darei conta que tudo realmente acabou, que o meu velho já será passado.

E há ainda a memória dos objetos, como em “A casa vazia”, onde as pessoas que lá estiveram continuam presentes através dos utensílios deixados para

trás, que representam as suas pegadas pela própria história ou o relato para além do tempo, como se o espaço em si se lembrasse dos corpos que por ele passaram.


No entanto, apesar dessas variações do mote central do vazio e da falta, prevalece a ideia da ausência enquanto possibilidade latente ou potência, enquanto vida no subjuntivo, o que poderia ter sido, o caminho que poderia ter sido tomado. E tudo isso, sempre balanceando entre os conceitos de representação e realidade, o que se manifesta de forma mais emblemática no conto que dá nome à obra: O cenário é o velório de um renomado escritor. Os visitantes parecem estar lá não para prestar reverência ao morto, mas para reafirmar sua frágil existência. Já de início, cai a frase que, para mim, condensa a essência do livro: “Assim como o morto, eles estão ali apenas fisicamente.” A vida se assemelha à ficção, e o protagonista, um aprendiz do escritor, lembrando-se de que o mestre tinha sido professor de teatro, pergunta-se se não seria também a sua morte uma performance.


E se tudo não passasse de encenação? O velório realmente se assemelhava com um incomum espetáculo teatral. Será possível que anos e anos aprendendo a escrever e a ler através das entrelinhas tinham feito dele um louco?


Por fim, as várias ausências se revelam menos expressão da falta do que desdobramentos da mais genuína solidão humana. Ou, parafraseando Drummond:

“Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.”


O AUTOR


Ney Anderson (Recife-PE, 1984) é jornalista, escritor e crítico literário. Tem contos publicados em diversas antologias. Entre elas, Contos de Oficina (Editora Bagaço,2007-2008-2009-2010), Livrinho de Papel Finíssimo (2011) e

Carrero com 70 (Cepe Editora – 2018). Participou ainda da antologia, Os novos escritores pernambucanos do século XXI (Diário Oficial de Pernambuco, 2008). Desde 2011 mantém o site Angústia Criadora (www.angustiacriadora.com), especializado em resenhas literárias. Já colaborou com artigos críticos para os jornais O Estado de S. Paulo e Estado de Minas. É também colunista de literatura da rádio CBN Recife. O espetáculo da ausência é o seu primeiro livro.

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