• Capitolina Revista

Carla Bessa resenha

Contos de antes, de Ana Vargas





Paisagens da memória



Em “Contos de antes”, de Ana Vargas, a memória parece ser a verdadeira protagonista


Contos de antes

De Ana Vargas

Editora Patuá

208 páginas


Carla Bessa | Berlim


Na última página de Contos de antes, de Ana Vargas, há uma curta nota posfacial na qual a autora expõe a sua motivação para a escrita do livro como resposta à pergunta: “Será que em um tempo anterior, envoltos por outras realidades, pudemos ser mais verdadeiros ou, ao menos, mais fieis a nós mesmos?”


Este tempo anterior é também o espaço das lembranças, e é neste tempo-espaço perdido – no sentido proustiano – que Ana Vargas tecerá as quinze narrativas de Contos de antes, nas quais a memória parece ser a verdadeira protagonista. Já nas duas epígrafes, fala-se de “uma eternidade dividida em breves segundos e intermináveis séculos” (Janusz Korczak) e “do sonho da infância” do qual “bem tarde, quando anoitece, é que nos lembramos”. No entanto, sabemos que há vários tipos de memória e distintas concepções de tempo. Há, por exemplo, na Física, esta interessante noção do tempo como paisagem – a paisagem do tempo, timescape, análoga à landscape (paisagem, no sentido espacial). Já nos contos de Ana Vargas, tem-se a impressão de que os personagens estão imersos em diferentes paisagens da memória – memoryscape. Neles, os narradores relatam suas lembranças indiretamente, por meio da descrição do seu entorno, das pessoas, dos

objetos, dos cantos escuros, e assim por diante, e é esse deslocamento das vivências interiores para a percepção do que está ao redor que franqueia a ressignificação destas mesmas recordações. Afinal, como disse certa vez Milton Hatoum: “Não há literatura sem memória. A pátria de todo escritor é a infância.” Sendo que ele não se refere aqui à lembrança pontual e nítida, mas sim à “memória desfocada, a memória não lembrada...o espaço da invenção. Alguma coisa que você lembra, mas sem nitidez porque é isso que traz o espaço fluido, nebuloso e incerto daquilo que se vai narrar.”


Ou seja, o relato do passado funciona como instrumento para a detecção de momentos perdidos entre as diversas camadas da memória, mas também como ferramenta de ajuste e reedição, que possibilita o ordenamento dos fragmentos soltos numa linha coerente. E é bem provável que aquele que narra caia na tentação de omitir alguns momentos ou de ampliar outros no intuito de resgatar, se não a integridade, ao menos a intensidade da própria história.


Uma “reedição” no sentido de melhoramento parece ocorrer mais fortemente na primeira parte do livro. Nos primeiros sete contos prevalecem as imagens rurais de uma infância resguardada, ainda que nem sempre perfeita e feliz. O livro abre com a imagem do menino, que retornará em alguns dos outros contos:


“...sentado no fundo do quintal debaixo do pé de abacate, escondido pelo sombreado das folhas e envolvido por um frescor que parecia desprender delas; desde as que estavam lá em cima e apontavam pras funduras do céu azul até as que estavam mais embaixo e pareciam um teto verde que me aconchegava até a alma. Naquela hora a cidade parece que sumia e eu ficava bem quieto e respirava bem baixo porque sabia que era chegada a hora de enxergar as coisas pelo avesso delas.”


O menino busca consolo na imaginação, a recompensa de todo solitário. O conto é intitulado “Das transparências” e refere-se a um estado específico de

espírito, no qual diferentes associações de caráter sensorial são alinhavadas no bordado das lembranças. Assim, a chuva faz o menino lembrar do amigo que morreu afogado, e essa imagem, por sua vez, o leva a pensar na morte como algo a não se temer. Ser menino é ver sempre os muitos lados de uma mesma coisa.



Já em “Constatação”, observamos, junto com a narradora, um homem angustiado preso no engarrafamento, uma metáfora do que se tornou a sua vida. O moço deixou tudo para trás e foi para a cidade em um tempo que já vai longe e parece apenas intuir as suas perdas. A narradora faz um inventário de suas lembranças em paralelismo com as do homem e constata que, apesar de terem seguido caminhos distintos, atravancados nas obrigações do cotidiano como no trânsito, transformaram-se ambos – ou nos transformamos todos: “naquele tipo de gente que, a partir de certo momento, para de olhar para trás”.


O conto “Doze” conta a história de uma menina de doze anos que se recusa a crescer, tematizando assim de forma emblemática esse anseio de parar o tempo para fixar o momento em que fomos “mais fiéis a nós mesmos”.


No geral, as narrativas dessa primeira metade do livro funcionam como variações da busca por uma originalidade não lapidada, que se teria perdido em algum ponto da linha (ou paisagem) do tempo, numa realidade onde se viveu intensamente para um presente, real ou inventado, mas, em todo caso, resguardado.


Já a partir do conto oito, o idílio começa a desmoronar. As histórias agora são de infâncias desamparadas, em ambientes hostis, onde os personagens não têm nem mesmo a possibilidade de escapar para dentro de si ou para a própria imaginação. No conto “Minha mãe”, por exemplo, adentramos um universo urbano de maus tratos e abandono, onde um filho vive com uma mãe alcóolatra e prostituída. Sua infância submerge aos poucos no lixo que se acumula pela casa, pois ninguém nunca joga nada fora.


Neste mesmo tom e em imagens igualmente carregadas de simbolismo, desdobra-se a história do menino do conto “Menino”, que vive na rua, fede e passa fome, e acaba interiorizando a loucura que a ele atribuem. Como numa variante do mote de Frankenstein, ele é o monstro feito do medo de seu interlocutor.


Um dos últimos contos, o “De como cresci” sintetiza bem a linha temática em torno da qual as vozes da memória se repetem em variações e se entrelaçam por todo o livro, como num cânone musical. Temos aqui o relato em retrospectiva de um homem que se recorda do momento em que deixou de ver o mundo como via até então e entendeu subitamente que se tornara adulto.


“Foi bem aqui mesmo que eu percebi que a vida adulta é somente isso: raiva que vira prazer, prazer que vira ódio, ódio que pode vir a ser, quem sabe, amor; amor que vira tudo isso aí, junto, embolado, misturado, um sobre o outro, um engolindo o outro; como engolíamos desesperados a carne dos peixes naquela noite (des)encantada de vinte e cinco anos atrás quando eu parei de sonhar mundos fabulosos sob a teia frágil, frágil, da minha infância fugaz.“


A perda da ingenuidade e da pureza, imanente ao processo de amadurecimento, revela-se o fio condutor desta coletânea de narrativas curtas com forte apelo sinestésico. Os contos conjuram os “breves segundos do ‘antes‘” como base da reconstrução memorial pela escrita, a partir do “tempo do hoje, o tempo maduro das pessoas ‘grandes’ e pós-modernas”.


A AUTORA


Ana Vargas nasceu em 1968, em Dores do Indaiá (MG). No final dos anos 80, migrou para São Paulo. Hoje trabalha como colaboradora freelancer redigindo e revisando textos; sabe que sua profissão está com os dias contados, mas segue nisso porque chegar até aqui não foi fácil (sim, Ana também sabe que isso não quer dizer absolutamente nada).

O livro “Contos de antes” está entre os semifinalistas do Prêmio Oceanos de Literatura 2020.

16 views0 comments

STAY CONNECTED

  • Facebook Clean