• Capitolina Revista

Carla Bessa resenha

O desespero por trás do riso



Em “E se deus for um de nós”, Tadeu Sarmento lança mão de imagética humorística para desvendar os horrores dos nossos tempos

Texto: Carla Bessa

Em seu livro “O Riso redentor: A dimensão cômica da experiência humana” (em português na tradução de Noéli Correia de Melo Sobrinho, Vozes, 2017), o sociólogo austro-americano Peter L. Berger, aborda vários aspectos e funções do cômico, desde a comicidade como diversão, como consolação ou como arma, até o cômico como manifestação da loucura. Em todos os casos, e apesar de diferenças nas respectivas formas de expressão, entendo que ele veja a capacidade de rir como uma válvula de escape, apresentando-se como instrumento redentor com o qual o ser humano, ainda criança, aprende a sublimar seus medos e a lidar com sua vulnerabilidade. O humor, segundo ele, ofereceria “uma libertação da tirania do princípio de realidade, uma libertação da razão em direção a uma zona particular de liberdade.” Não me parece coincidência que sobretudo em tempos de crise um enorme número de memes e piadas sejam lançados no éter.

Em “E se deus for um de nós”, Tadeu Sarmento parece ter se proposto (com êxito, aliás) a utilizar todo esse leque de possíveis encarnações do cômico, inclusive, a loucura, para se libertar de uma realidade que se torna intragável. Há aqui uma mistura sórdida de sátira, trocadilhos, caricaturismo, absurdo e, sobretudo, elementos do tragicômico e do macabro, trazidos à tona através de um humor mordaz que, como uma lente de aumento, só faz expor ainda mais toda a labilidade do humano.


O enredo

O plot central gira em torno de Yves Barnacle, uma jovem ruiva irlandesa que viaja ao Recife para perder a virgindade, contrariando uma profecia de seu pai, o poeta gago Finan MacDowell, que testamentou em versos que a filha conduziria o IRA à vitória sobre a coroa inglesa, transformando-se numa versão moderna de Joana D’Arc. Em Recife, ela trabalha numa sorveteria e é admirada por um supervisor de Call Center, que é quem narra a história. Ao mesmo tempo, há um assassino em série especializado em ruivas virgens aterrorizando a cidade. A investigação deste caso é monitorada por um policial obcecado pelos livros de Raymond Chandler.

Além disso, vivenciamos as histórias paralelas de um taxista apaixonado por Graham Greene, de uma seita cristã de virgens sodomitas, um barbeiro surdo suspeito de ser torturador do regime militar e um ex-agente secreto romeno traficante de escravas sexuais, assim como de inúmeros personagens secundários que entram e saem da trama, num caleidoscópio de narrações sobrepostas. No entanto, apesar de todas essas ramificações narrativas, o enredo nunca perde o fio da meada e o plot central em torno dos assassinatos das ruivas segue desenvolvendo-se a cada capítulo, com novos suspeitos que são presos e depois soltos, levando-nos paulatinamente ao verdadeiro serial killer. Com isso, Samento prova que domina seu instrumento. Desde a construção de personagens multifacetados e complexos, de cenários coesos, até a linguagem eloquentemente labiríntica, com frases longas e elaboradas, tudo aqui parece ter sido composto com cuidado e engenhosidade. Até mesmo os nomes dos personagens, que são hilários. Temos, por exemplo, Ciprian Maiorescu, dono da sorveteria, ou Dúbio Gomes, homossexual enrustido e amigo do narrador, que, como este, também trabalha no Call Center. Ou ainda Plínio Parula, ex-proprietário de funerária e atual dono do principal sebo da cidade.

Lembrou-me a escrita do autor americano David Foster Wallace, de quem se diz que elaborava listas com excentricidades, nomes próprios engraçados, doenças raras, manias, tiques e situações tragicômicas para usá-las como material nos seus livros. Não me admiraria se ouvisse que Tadeu Sarmento também confecciona esses tipos de arquivos.

Em termos de técnica, é interessante também ressaltar o controle na permanente mudança do ponto de vista narrativo. A história é contada por um narrador testemunha, que se dá a luxos de onisciência, saltando de uma perspectiva à outra de forma natural e fluida. Outro ótimo recurso são as comparações divertidíssimas porque absolutamente inusitadas, beirando o surreal. Só para citar alguns exemplos:

Pareciam competir entre si como adolescentes doidos, meninos mesmo, ou espíritos de eletricistas mortos assombrando antigas casas de máquinas.”

“...parecia excessivamente sério, mas era a seriedade de um javali mijando sob a luz fosforescente.”

Quanto à felicidade, é uma cidade nova na qual só se chega de tobogã...

Peixes enormes e magnéticos, cujas escamas brilhavam tanto quanto taxímetros refletindo o sol.

“...os cabelos desgrenhados iguais aos de Beethoven debaixo de ventiladores de teto.”

A função da comicidade: o desespero por trás do riso

Apesar de toda essa graça, a ideia central do livro me parece bem outra. Há uma frase mais para perto do final que resume bem o que, na minha opinião, fica como a essência deste romance: “Todos riram, embora não fosse uma piada”. Isso porque, apesar de toda a comicidade rasgada (que, sem dúvida, permeia o livro), não se trata aqui de um encadeamento gratuito de trocadilhos e chistes nem de nonsense. Pelo contrário. Enquanto o seu primeiro romance, “Associação Robert Walser para sósias anônimos”, vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura, como bem ressaltou o colega Ovídio Poli Júnior em sua resenha para o Jornal Rascunho, “é marcado por um tom farsesco, com certo desencanto que não esconde um profundo desprezo pela condição humana”, em “E se deus for um de nós”, o que se esgueira por trás do riso é o pavor e o desespero de um autor que não consegue deixar de ver a catástrofe em direção a qual estamos rumando.

Com seu humor violento, Sarmento parece querer nos alertar que se deus for de fato um de nós, ele não será bom nem misericordioso. Se deus for um de nós, ele será a vingança da sombra sobre os passos, o reflexo da nossa brutalidade mais profunda, uma espécie de scary clown. E que, seguindo um instinto de rebanho, muitos se entregarão a ele de livre e espontânea vontade, assim como a protagonista, Yves Barnacle, ou as ruivas da seita “Guardiões do Selo de Pedro” parecem dispostas a entregar-se ao assassino. Isso porque a nossa necessidade de um deus (de um guia, um líder, um mito) talvez seja ainda maior do que a nossa cegueira ou o medo de reconhecer que o Coringa já pode estar entre nós.

E se deus for um de nós

De Tadeu Sarmento

Editora Confraria do vento

384 páginas


Tadeu Sarmento. Foto © Thais Guimarães

TADEU SARMENTO nasceu no Recife, em 1977. É autor dos livros Breves fraturas portáteis (Fina­-Flor, 2004), Paisagem com ideias fixas (Bartlebee, 2012), Cafuca (Confraria do Vento, 2016) e Associação Robert Walser para sósias anônimos, romance vencedor do II Prêmio Pernambuco de Literatura, em 2014, publicado em 2015 pela Cepe Editora. Em 2016, ganhou o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, com o livro de poemas “Um carro capota na lua”, além do Barco A Vapor, em 2017, que premia livros para crianças e jovens, com o título "O Cometa é um sol que não deu certo."

133 views

STAY CONNECTED

  • Facebook Clean