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Capitolina entrevista Marco Bucaioni, Edizioni dell'Urogallo


o editor Marco Bucaioni


Uma casa editorial em Perugia: pequena, mas importante. Dedica-se a traduzir a literatura em língua portuguesa para a língua de Dante. Como nasceu e cresce a Edizioni dell'Urogallo. Nara Vidal conversa com Marco Bucaioni em entrevista exclusiva.



Capitolina Revista - Como se deu seu contato com a literatura em língua portuguesa?

Marco Bucaioni - Até inscrever-me na faculdade, não tinha nenhuma ligação especial ao mundo de língua portuguesa: ninguém na família que tivesse vivido nalgum país em que se falasse português, nenhum amigo que tivessem origem nessa parte de mundo. A minha fascinação pela língua portuguesa e as culturas que ela expressa surgiu por causa de umas viagens que fiz a Portugal e, dou-me conta agora, porque eram aquele um período (em volta do ano 2000) em que no circuito cultural italiano chegaram à máxima fama alguns nomes relacionadas com esse mundo: em primeiro lugar a obra e a figura de Antonio Tabucchi, que foi o maior divulgador de “coisas portuguesas” na Itália daqueles anos. Tradutor e quase alter-ego de Fernando Pessoa, é a ele que devemos a difusão transversal da fama desse poeta na sociedade italiana (muito embora não tenha sido Tabucchi o primeiro a propor traduções pessoanas). Lembro-me de, na escola, nos proporem a leitura do romance Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi, junto com uma breve análise intersemiótica do filme que foi retirado desse romance. Também eram os anos da explosão da fama de José Saramago: tendo ele recebido o Nobel em 1998, nesse período estava mesmo na moda (embora muitas traduções já circulassem abundantemente pelo público genérico italiano e internacional a partir de 1990). Além desses dois grandes nomes, também houve o filme de Wim Wenders (Lisbon Story) e sobretudo a repentina fama da banda que assinou a trilha sonora desse filme (os Madredeus). Chegavam então por aqueles anos esses produtos, testemunhas e estilhaços de um mundo, de uma civilização (a portuguesa) ao mesmo tempo vizinha e distante, encalhada nessa esquina periférica do nosso continente. Tudo isso na mente de um jovem pode ter um efeito enorme! Fui a Portugal pela primeira vez em 1998, com o meu pai, de comboio. Aportei à estação de Santa Apolónia em Lisboa e logo me dei conta de que estava a respirar um ar muito diferente do de Espanha – o país vizinho – e de que havia signos, pela rua, de uma cultura que me escapava completamente, sendo ao mesmo tempo atractiva e dalguma forma familiar... E a língua, então! O primeiro contacto com a língua foi fascinante e devastador: vinha eu de parcos estudos literários num “liceo scientifico” da província italiana, onde, todavia, tínhamos passado por uma sólida introdução à filologia românica e à poesia medieval europeia e italiana – com todo o polimorfismo linguístico das infinitas variantes românicas antes da fixação definitiva em moldes nacionais (a Escola Siciliana, o Stilnovo, as laude de Jacopone, o material padano, para não sair da área italiana, já eram um campo impressionante de soluções linguísticas diferenciadas e fervilhantes). De repente, encontrei-me num ambiente em que se falava uma língua que me parecia irreal: por mim sentida então como mistura de várias soluções românicas de várias longitudes, ao mesmo tempo arcaica nalguns aspectos e extremamente inovadora noutros. Uma descoberta!

Por isso, decidi inscrever-me no curso de Línguas e Literaturas Estrangeiras e fiz do português o meu objecto principal de estudo. Com a universidade, também veio um pouco de conhecimento da história da literatura escrita em português (naqueles anos e na universidade em que eu estudava, cientemente limitado ao cânone histórico estritamente lusitano!). Mas depois, graças a um semestre de Erasmus na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e circulando por livrarias, alfarrabistas e alguma cadeira universitária da capital portuguesa, comecei a dar-me conta da dimensão pós-imperial da língua portuguesa como língua literária: comecei a perceber a existência e a incrível significação da produção literária contemporânea do Brasil e da África de língua portuguesa. Foi uma festa: abria-se perante os meus olhos um oceano de instâncias, de propostas estéticas para mim absolutamente inovadoras. À linha portuguesa que ia das cantigas ao Pessoa e além, acrescentaram-se mundos para mim novos, que recolocavam a história literária portuguesa num mundo contemporâneo muito mais vasto e multiforme do que a produção literária novecentista portuguesa (sem nada tirar à emoção de descobrir, por exemplo, a prosa de António Lobo Antunes!).

Daí a tentar perceber o que é que havia traduzido para a minha língua o passo foi breve (isso de qualquer forma já responde à próxima pergunta): desolador foi descobrir que mesmo autores clássicos do cânone português e brasileiro oitocentista, por exemplo, careciam de qualquer tradução para italiano, para não falar em nomes mais ou menos importantes da contemporaneidade...

CR - A Edizioni dell'Urogallo abriu as portas em 2007. Como foi a preparação e a motivação para abrir uma editora tão específica?

MB- Sobre a motivação, já disse algo na resposta anterior. Descobri com o horror furioso dos jovens que fundamentalmente não havia nenhuma editora que estivesse a traduzir consistentemente do português para o italiano, para colmatar esse vazio que eu sentia como imprescindível. Acho que é uma sensação bastante difusa: quem por um motivo ou outro aproxima-se de um ou outro segmento das literaturas escritas em português partindo de fora, não pode não reparar na escassez de traduções e na quase nula circulação dessas literaturas fora do mundo de língua portuguesa.

Na realidade, nos primeiros anos 2000, houve uma empreitada editorial em Itália dedicada exclusivamente à tradução do português: o editor português Diogo Madredeus, da Cavalo de Ferro, abriu uma espécie de sucursal italiana (Cavallo di ferro!), com a colaboração da escritora e tradutora italiana Romana Petri. Nos anos em que eu me debruçava sobre este mundo da tradução a Cavallo di ferro estava no seu auge. Pena que, em poucos anos, tal editora perderia a sua especificidade de linha editorial, com uma mudança de gestão, deixando um pequeno catálogo de livros traduzidos do português que estancou.

A preparação, para dizer a verdade, foi relativamente escassa. Não só eu era jovem e relativamente ingénuo: também a minha formação era de letras, e se mais ou menos me sabia movimentar dentro do panorama contemporâneo das literaturas escritas em português, nem sabia exactamente o que era uma factura! Não tinha nenhuma formação de gestão nem noções técnicas de paginação e gestão de um catálogo editorial. O desafio foi simplesmente tentar demonstrar que era possível (e economicamente viável) construir um catálogo de qualidade literária composto só de traduções do português, dando o que eu sentia que era o justo espaço e relevo a produções literárias de outra forma ignoradas ou muito pouco valorizadas...

Também a questão era a de fornecer instrumentos aos colegas das faculdades: sem traduções não há fama literária possível; sem livros publicados está truncada à raiz a hipótese de uma dada literatura, uma obra, um autor, circularem, serem conhecidos e até serem estudados num país estrangeiro. A tradução e a publicação são uma acção propedêutica a qualquer tentativa de estudo de literaturas estrangeiras, especialmente num país como Itália em que, então como agora, muitos estudiosos fundamentalmente não lêem nenhuma língua estrangeira.

Os especialistas, claramente, sim: mas os estreitos confins da “lusitanística” italiana (constituída por um punhado de colegas), mesmo com as melhores intenções, não consegue abrir brecha no público geral nem no debate cultural nacional... O grande número de estudiosos de literatura – e de professores de escola –, como é de se esperar, formaram-se em literatura italiana e/ou literaturas clássicas. E, por força, este núcleo de italianistas e classicistas é muito influente na cultura nacional.


Edizioni dell'Urogallo

CR- A editora está organizada em coleções. Você acredita que seja uma maneira de informar o leitor sobre a pluralidade da literatura escrita nessa língua? É importante, acredita, separar Brasil de Angola, por exemplo? Ou você vê o termo Lusofonia como um conceito de abrangência bem-vinda?

MB- A ideia de dividir o catálogo da editora em maneira “geográfica” é, como é óbvio, discutível. Fiz isso por automatismo, uma decisão um pouco filha da minha formação (nas faculdades as literaturas são divididas e estudadas por “nação” ou “por língua”), e um pouco porque não faltavam exemplos, mesmo no panorama editorial italiano, como a Iperborea, de editoras especializadas na tradução de uma área linguístico-geográfica definida.

O resultado dessa divisão é, em primeiro lugar, dar à editora uma imagem e uma identidade muito definida, o que é bom: vi muitas chancelas nascerem sem identidade, e geralmente essas chancelas duram pouco, porque não se percebe bem o que fazem, parece que querem fazer um pouco tudo, e é difícil fazer um pouco tudo e bem, quando há já quem faça um pouco tudo bastante bem, como as grandes chancelas de referência. Por outro lado, essa divisão e essa comunicação forte de identidade geográfico-cultural é também um obstáculo: se é verdade que há muita gente que reage com curiosidade, outros há que reagem com grande indiferença e até com uma certa hostilidade. Já houve quem se queixasse que não publicamos livros de autores italianos (quando, na opinião deles, éramos supostos, como se não houvesse já centenas de chancelas a fazerem isso!). Há pessoas italianas que nos enviam constantemente manuscritos a serem editados, que não conseguem nem imaginar uma editora que faça só traduções. Mas pronto.

Levando o discurso a um nível talvez mais interessante para esta revista, a denominação geográfica muitas vezes é vista como uma limitação: literaturas de língua portuguesa? Para quê limitar-se a isso? Porquê? Há mais coisas para ler além do que já conheço? Muitas vezes me fizeram essas perguntas: há alguma coisa que valha mesmo a pena? Isso deriva de uma imagem da literatura internacional em que Portugal, o Brasil e os países de África de língua portuguesa não são considerados lugares produtores de cultura, de literatura, de alguma coisa que preste, ou que seja considerado válido num espaço que se julga mais central.

O termo “lusofonia”, tanto quanto me foi dado perceber, é, de facto, problemático. Os detractores dele sublinham, por um lado, como o prefixo luso- remete de qualquer forma para uma exclusividade (ou uma peculiaridade) portuguesa dentro do espaço desta língua, trazendo portanto memórias imperiais e desequilíbrios de poder. Essa suspeita é reforçada pela própria génese do termo, mais ou menos inspirado na francophonie (que é um termo eurocêntrico e de exclusão, visto que no mundo de língua francesa a francofonia opõe-se à França metropolitana, criando o absurdo de os próprios franceses não serem francófonos...). Alinho bastante com esta perspectiva. Por outro lado, todavia, há que dizer que, especialmente em termos de circulação literária e cultural, e nomeadamente fora do espaço de língua portuguesa, faz sentido instituir uma categoria que abranja todas as regiões descontínuas que integram esse espaço imaginário e real: muitas vezes os problemas e as características que enfrentam os decisores de políticas culturais e os operadores desses sectores são muito parecidas nos vários cantos do mundo de língua portuguesa e dependem muito do factor língua, que é o factor ao mesmo tempo unificador e de exclusão desse mundo. O caso do Brasil é patente: única grande nação da América Latina que não tem o espanhol como língua oficial, encontra-se muitas vezes excluído de resenhas literárias e culturais (ou de discursos crítico-teóricos) daquela área do mundo exactamente por causa da língua: quem se formou em espanhol e geralmente se encarrega de produzir esses discursos, não tem, como é óbvio, um paralelo conhecimento da língua portuguesa e portanto da produção cultural brasileira.

Para resumir, portanto: ter uma identidade forte ajuda a afirmação da editora e da sua fama, mesmo alienando alguns que acham que estas culturas não têm nada de interessante a dizer, pessoas que levariam em consideração os mesmos títulos (acho eu) se eles fossem colocados em catálogos de editoras generalistas maiores; a segmentação em coleções geográficas convida o leitor a lembrar e colocar os vários lugares de enunciação literária que constituem a constelação das culturas de língua portuguesa.

CR- A Edizioni dell'Urogallo já foi contemplada com importante prêmio de tradução literária. Como é a parceria com tradutores? São relacionamentos diversos dependendo do país cuja literatura será traduzida?

MB- É verdade, em 2015 fomos agraciados com um dos prémios mais importantes do mundo editorial italiano: o Prémio Nacional para a Tradução do Ministério Italiano da Cultura. Esse prémio existe desde 1988 e cada ano é premiada uma editora italiana que se tenha distinguido na tradução de literaturas estrangeiras para italiano e uma estrangeira que tenha feito o contrário, assim como dois tradutores, um italiano e um estrangeiro, pela sua carreira. É um prémio muito prestigioso, eu nem queria acreditar. Há também uma ponta de orgulho territorial: pela primeira vez o prémio foi para uma editora da pequena região onde operamos, a Úmbria (a região de Assis, na Itália Central...). O que me deixou muito interdito na altura foi a total falta de reacção à notícia por parte das instituições com que estávamos em contacto na cidade e na região...

A motivação do prémio foi bastante clara: «Para as Edizioni Urogallo, que se distinguiu em Itália porque inteiramente dedicada à difusão de autores de países de língua portuguesa, vozes de uma desmedida extensão literária que até há pouco estava à espera de ser explorada». Foi muito bom: não havia nenhum especialista de literaturas de língua portuguesa no júri – composto essencialmente de académicos –, ou alguém cuja trajectória tivesse tocado o mundo de língua portuguesa: eles escreverem isso quer dizer que a consciência de que há de facto mundos literários em português que valeria a pena traduzir e ler cá fora atingiu também académicos e observadores cultos fora do restrito mundo dos estudos portugueses. É uma abertura que aprecio não só em nome da editora que fundei, mas em prol da fama literária dessa parte de mundo, o que demonstra ainda uma vez que os académicos, se por um lado têm o dever de conservar e de guardar os altos cumes dos cânones literários, por outro lado sempre tiveram uma faceta progressista que os leva a apontar novidades, a abrir mundos, a integrar e a renegociar esses mesmos cânones. O poder consagrante da academia, portanto, não é sempre dirigido e limitado ao que já foi canonizado no passado!

A parceria com os tradutores corre geralmente bem, mas também há uns problemas. O principal é que ninguém vive de tradução literária do português em Itália, porque não há recursos suficientes para isso, ou, ao menos, nunca houve até agora. Também não há propriamente editoras que apostem na tradução do português e tenham necessidade de tradutores, geralmente acontece o contrário: o tradutor é forçado a ser também “scout” como se diz por aqui, isto é: ler imensos livros, escolher os melhores para serem traduzidos e propô-los às editoras. Portanto é muito raro haver um projecto de livro em curso sem tradutor, sendo que o próprio tradutor foi quem o propôs.

Isso cria uma situação horrível do ponto de vista laboral e de carreira: muitos jovens iludem-se pensando que a tradução literária do português possa vir a ser uma carreira ou um emprego futuro, apesar de nós os avisarmos que não é assim. As narrativas neoliberais sobre carreira e trabalho são tão pervasivas que entraram já na cabeça de muita boa gente. Nós trabalhámos muito com tradutores em formação, porque isso seria também um dos objectivos da editora: formar tradutores para alargar e garantir no futuro a tradução dessas literaturas para italiano. Geralmente depois da primeira, pelos vistos chocante experiência, os tradutores não continuam. Quando manifestam a sua vontade inicial de se tornar tradutores literários do português, têm uma imagem muito romanceada do que é o trabalho de tradução, e uma imagem completamente distorcida do trabalho a desenvolver. Depois de se darem conta do enorme labor que é traduzir qualquer livro, levá-lo até à publicação através de infinitas revisões e correções, muitos deles fogem a toda a velocidade. É uma pena.

Sobre a especialização: o circuito da tradução e publicação de obras literárias do português para italiano é tão pequeno que não dá para ver grandes sinais de especialização. É verdade que existiram e existem figuras de tradutores mais experientes ou mais sintonizados com uma ou outra tradição literária e/ou com um ou outro período histórico, mas em geral o tradutor de português é capaz de traduzir dos vários segmentos espaciais e temporais da língua portuguesa, daí que, como dizia na resposta anterior, a língua continua ser um factor determinante antes de qualquer outro. Roberto Francavilla, por exemplo, tem traduzido (e bem) muitos autores brasileiros (Chico Buarque, Clarice...), recentemente, assim como Livia Apa e Giorgio De Marchis traduziram bastante da África (Agualusa os dois, Ondjaki a primeira, Paulina Chiziane o segundo, entre outros). Mas há figuras como Daniele Petruccioli, Vincenzo Barca ou mesmo eu, entre outros, que andaram a traduzir textos brasileiros, africanos, timorenses, portugueses...



CR- Poderia fazer uma breve análise do mercado italiano para livros escritos em português?

MB- É uma pergunta muito difícil. Responder de forma seca que «não há» não seria completamente falso do ponto de vista meramente económico. Isto revela-se no momento da compra de direitos de tradução: os agentes experientes sabem muito bem que qualquer autor de língua portuguesa que não José Saramago, Paulo Coelho e Jorge Amado, essencialmente não vale rigorosamente nada no mercado de direitos. Explico-me: a avaliação, claramente, não é literária, mas é meramente comercial. Cada autor que não seja um desses três, não tem nome e renome no público italiano (e na maioria dos países europeus, verdade seja dita), portanto ir vender um autor conhecido ou um desconhecido no Brasil ou em Portugal obtém o mesmo resultado, do ponto de vista comercial: o editor, através do seu circuito de difusão e disseminação, tem que construir do zero a fama do autor em Itália. (Esta situação é perigosíssima: se não há um incentivo comercial em publicar grandes nomes e bons autores, então há a possibilidade de equiparar esses com autores menos capazes... Coisa que acontece também na vertente do público: várias vezes tive a sensação, quer com leitores ou com funcionários e representantes de instituições organizadoras de feiras e eventos literários, de que quem falava comigo imaginava os autores que nós publicámos como amigos pessoais meus que andei a conhecer nestes países estrangeiros e que por acaso até escreviam coisas e não como autores de carreira. Ainda me lembro de uma funcionária da Região que, depois de ignorar por meses a possibilidade por mim assinalada de convidar José Eduardo Agualusa para a pequena feira do livro de Perugia, uma semana antes do evento telefonou-me a dizer se o tipo afinal vinha ou não. Eu disse-lhe: «Isto não é assim: não posso chamar um autor de Lisboa com uma semana de antecedência!», e ela: «Porquê, o que é que tem que fazer?») A tarefa, portanto, não é nada fácil, como é óbvio. Estatisticamente, quase ninguém conhece os nomes – sei lá – de Rubem Fonseca, Mia Couto ou de Lídia Jorge e Gonçalo M. Tavares ou Agualusa em Itália, portanto – estatisticamente – quase ninguém irá encomendar ou comprar um livro deles se não houver outro alguém a explicar-lhe do que é que se trata. Isto não acontece com os parcos “grandes nomes” acima citados: esses livros comunicam-se sozinhos e vendem sozinhos. É essa fama já constituída que o editor estrangeiro compra quando negoceia os direitos de tradução.

Claro que isso não quer dizer que não haja pessoas interessadas ou que possam ficar interessadas nestas literaturas em Itália. Há um restrito número de pessoas que já conhecem um ou mais países de língua portuguesa e podem ter ouvido os nomes de certos autores por isso; há um certo número de pessoas que se deixa seduzir “a partir do nada” pela proposta de autores novos. E há um número de pessoas que se formaram em literatura portuguesa e/ou brasileira na faculdade, ou tiveram cadeiras dentro de uma licenciatura em outras literaturas.

A grande dificuldade é alcançar e manter o equilíbrio com esses números, porque são muito reduzidos: o desafio é manter uma actividade de tradução e publicação equilibrada e em linha com essa parca e intermitente procura.

CR- Na Inglaterra há um crescente interesse em literatura traduzida, mas ainda é um movimento muito tímido. No Brasil, pode-se argumentar, que há traduções do inglês para o português em excesso. Como é o interesse da crítica e dos leitores na Itália na literatura escrita originalmente em outras línguas?

MB- É claro que a “balança internacional de tradução” entre Inglaterra e Brasil está desequilibrada, assim como entre o mundo de língua inglesa em geral e o mundo de língua portuguesa, mesmo incluindo Portugal. Mas há que considerar que esta balança está brutalmente desequilibrada também com o resto do mundo. Estamos a viver décadas de grande hegemonia cultural e até literária do mundo de língua inglesa, é um facto. Depois da queda da União Soviética, com a forte limitação da importância do russo como língua-fonte de tradução, a dominação do inglês aumentou brutalmente, contrariando visões da globalização como um sistema mais plural e multicêntrico.

Em Itália sempre se traduziu muito. Muita literatura estrangeira passa pela tradução e chega ao grande público italiano. Graças a deus! É um sinal que a cultura italiana não se considera nem isolada, nem tão auto-suficiente como uma franja de críticos e especialistas, especialmente de literatura italiana, até gostariam que se considerasse (sempre a queixar-se do estado lastimável da fama da cultura nacional, às vezes com matizes nacionalistas e de suposta superioridade dessa mesma cultura nacional, mas essa é outra história...). Ao mesmo tempo, porém a abertura para a importação de instâncias literárias do estrangeiro não é nem uniforme nem igualmente virada para todas as direcções. Digamos que é como se houvesse uma espécie de escala: importa-se literatura de lugares considerados mais culturalmente centrais, e portanto relevantes, ao mesmo tempo que os lugares considerados periféricos são largamente ignorados. Acho que isto acontece em graus variados em todos os sistemas literários.

Traduz-se bastante e a literatura em tradução circula e é difundida bastante: os dados das editoras assinalam uma recente diminuição da percentagem de traduções na produção livreira anual, talvez devida ao efeito conjunto da crise europeia pós-2010 (as traduções custam mais do que os originais a serem publicadas) e ao efeito de distorção causado pela possibilidade recentemente oferecida pela agência italiana de ISBN de auto-publicação aos autores: o que fez com que aumentou a publicação de originais italianos, em percentagem. Mesmo assim as traduções ultrapassam os 15% dos títulos publicados, o que é relativamente muito para um país com estas dimensões.

Os autores de língua portuguesa, porém, representam uma percentagem mínima desse 15%. Imediatamente revelador do estado das coisas é a comparação com os de língua espanhola: acompanhando o boom latinoamericano a partir dos anos 70, milhões de italianos são familiarizados não só com os grandes nomes hispânicos, como García Márquez, Neruda, Isabel Allende, Borges e outros, mas com uma panóplia de autores daquela parte do mundo. Continuam a surgir em Itália editoras especializadas em espanhol. Só citando de memória, depois de 2000 surgiram chancelas como GranVía e SUR, na prática inteiramente dedicados à tradução do espanhol. Em Itália a escrita hispano-americana chegou a cumes de fama que permitiram, por exemplo, o surgimento de obras escritas por autores italianos “ao estilo” ou “ao sabor” latinoamericano, como é o caso dos romances mexicanóides de Pino Cacucci em que muitas vezes há uma palavra ou expressão em castelhano no próprio título, para dar o cheirinho logo à partida. A impressão é que, além dos mais consagrados, consegue chegar ao leitor não-especializado italiano uma parte consistente da produção mesmo contemporânea de todos os países de língua espanhola: dezenas de autores chilenos, mexicanos, cubanos etc...

A literatura de língua portuguesa é sub-representada a nível mundial. Visto de Inglaterra, talvez o problema seja menos evidente porque todas as literaturas que não as de língua inglesa têm uma presença menos que marginal no mercado editorial desse país, pelos dados de que disponho. A famosa fasquia de 3% de traduções, que seria a percentagem de livros traduzidos dentro do total de títulos publicados no mercado americano, simbólica e talvez não precisíssima, mas reveladora, conta-nos uma história de marginalização das literaturas de todo o mundo não-anglófono. Em sistemas literários mais abertos à tradução, como o italiano, a sub-representação do português, porém, é muito evidente.

Aqui talvez seja útil convocar um conceito (só um: não quero ser chato) da teoria da literatura: o de littérisation da estudiosa francesa Pascale Casanova. Em extrema síntese: ela acha que o centro do espaço literário mundial (um centro que não é uma entidade unívoca e monolítica e sim, por sua vez, uma rede de instâncias mais ou menos independentes) certifica a “literaridade” das obras que vêm da periferia. Dalguma forma, por exemplo, as instâncias do centro literarizaram boa parte das Américas, com o tempo, com a parcial excepção do Brasil.

A situação brasileira – diga-se de passagem – parece-me particularmente escandalosa, dada não só a dimensão do país e da sua produção literária contemporânea, mas também a extraordinária variedade e qualidade do seu já mais ou menos cristalizado cânone literário do século XX!

Todo e qualquer leitor médio europeu tem na cabeça os nomes dos grandes escritores estadounidenses: desde Mark Twain até Ernest Hemingway, passando por Edgar Allan Poe, Herman Melville, e chegando a Steinbeck, Faulkner, Saul Bellow ou até Philip Roth, via Allen Ginsberg, T. S. Eliot, são todos nomes célebres. Desde o tal boom da América latina podemos dizer que a Europa e a América do Norte decidiram passar o certificado de littérisation também àquela área do mundo: ao lado de García Márquez, todos conhecem os nomes de Pablo Neruda, Jorge Luis Borges, Cortázar, Sábato e Onetti, mas também de Octavio Paz, Álvaro Mutis e Arturo Pérez-Reverte, Isabel Allende, Luis Sepúlveda, só para citar alguns.

O Brasil é o único grande país americano que não parece ter “beneficiado” dessa onda, se não pontualmente (Jorge Amado, um pouco Guimarães Rosa) e sem grande alarido. O facto de não falar e escrever em espanhol deve ter sido um facto fundamental: os circuitos de tradução, mas também de pedagogia e disseminação, não passam pelos mesmos agentes.

Portugal, de alguma forma, tem mais “sorte”, relativamente, sendo um país europeu e podendo gabar uma história literária com séculos de duração – o que é considerado também um factor de aumento do capital simbólico de uma literatura nacional. Mesmo assim, Portugal está muito pouco representado no mundo, sendo que os “campeões” são Pessoa e Saramago e daí não nos mexemos, apesar dos esforços de muitos tradutores, editores, críticos.

Em certos segmentos, até a produção literária da África em português é relativamente mais representada em tradução do que a brasileira. A certa altura comecei a tentar fazer as contas das traduções para italiano desde 2000 de obras literárias originarias do Brasil, de Portugal e da África: mesmo com resultados ainda não definitivos, pude verificar que se Portugal ainda mantém uma primazia evidente, em termos de número absolutos de traduções publicadas, o Brasil e o conjunto dos países africanos de língua portuguesa têm um número de traduções comparável. O que me surpreendeu imenso: as dimensões do Brasil, a extrema multiplicidade das propostas literárias brasileiras, mas também os laços que unem o Brasil e Itália (uma emigração histórica italiana de milhões de pessoas, uma contra-imigração actual relevante; laços económicos e institucionais sólidos) faziam-me pensar que a literatura brasileira devesse ser muito mais representadas do que as africanas de língua portuguesa em Itália. É verdade que entre a segunda metade dos anos 90 e os primeiros 2000 houve um especial interesse para literaturas africanas e de outras periferias mundiais, que talvez tenha redundado neste dado...

Como inverter isso? Como agir? É muito difícil: são instâncias que um editor sozinho não pode controlar e influenciar, são precisos muitos factores a operarem todos juntos. Também há que dizer que a consagração internacional geralmente visa autores soltos, mais do que inteiras literaturas: Pessoa, Saramago e poucos mais são os únicos nomes “extraídos” de várias tradições literárias de língua portuguesa e que assumem um papel de “embaixadores” das suas culturas nacionais. É normal que esta operação seja feita “arrancando” os autores dos seus contextos (que são largamente ignorados), re-situando-os e re-escrevendo-os num cânone internacional com uma posição e uma leitura muitas vezes diferente da que é feita dentro das suas tradições. Um estudioso italiano, Roberto Mulinacci, interrogando-se recentemente sobre o destino da fama literária das literaturas de língua portuguesa em Itália em termos parecidos com os nossos, assinala como a fama de Pessoa, por exemplo, poderia ser um trampolim para a emergência de outros autores portugueses, contíguos ou não, mas afinal tal não acontece: a extraordinária fama italiana de Pessoa não criou grande interesse nem nos autores imediatamente a ele vizinhos (por exemplo, alguma coisa do Mário de Sá-Carneiro foi publicada pontualmente pela Sellerio de Palermo, mas com uma recepção reduzida, enquanto no caso de Almada Negreiros fomos nós a publicar o seu romance, a sua poesia e prosas experimentais a partir de 2014...). O que aconteceu com os latinoamericanos nos anos 70, que abriu as portas à percepção internacional da língua espanhola como produtora de grande literatura, e mais recentemente com a área escandinava (policiais, mas não só), são acontecimentos muito raras. Ao contrário do costume, aconteceu que inteiras nações, inteiras tradições literárias internacionais foram entendidas como relevantes. Concorreram para isso instâncias variadas e diversas: tradutores, editores, mas sobretudo agentes consagradores de ambientes centrais e hiper-centrais do sistema literário mundial. A fama italiana de García Márquez não teria sido possível sem a recepção estadounidense das traduções de Gregory Rabassa... Prever, portanto, que possa haver um movimento parecido para a língua portuguesa é muito difícil: pode acontecer, ou não, e depende da conjunta e repetida acção de instâncias centrais que escapam ao controle de um tradutor ou de um pequeno editor que opera num país semi-periférico, como eu me considero.

Antes de fechar esta resposta, queria acrescentar uma coisa sobre o mundo de língua inglesa, de que sei pouco, na realidade: em congressos, porém, vi que há muitos académicos activos em universidades britânicas e americanas que encaram a quase ausência de traduções literárias nos seus países como uma vergonha, e que demonstram sincera curiosidade intelectual para produções literárias que eles se sentem forçados a ignorar por falta de traduções, mas que estariam prontos a descobrir se o mercado das traduções tornasse tal coisa possível. Mais uma vez, as instituições académicas, às vezes justamente acusadas de imobilismo cultural e cego conservadorismo, revelam também uma abertura importante.


CR- Quais os critérios envolvidos na escolha de um livro a ser traduzido e publicado pela Edizioni dell'Urogallo?

MB- A pergunta é bem colocada. Muitas vezes é-me colocada esta mesma questão em Itália, mas num contexto e em termos diferentes: geralmente os italianos querem saber como é que encontro esses títulos desses autores totalmente desconhecidos, que são vistos como inalcançáveis e totalmente obscuros. Também há muito no panorama da literatura mundial uma impressão de que o que há de bom já foi feito ou é feito pelas grandes editoras: muitos leitores não suspeitam da relativa riqueza e solidez das propostas literárias dos cânones contemporâneos em português... Na realidade, para qualquer leitor de língua portuguesa, basta folhear o nosso catálogo para perceber que mais ou menos, publicámos o óbvio, isto é, sempre que possível, nomes de clara fama e consagração nos seus campos literários nacionais.

O espaço literário possui a sua linguagem e a sua maneira de “galardoar”, ou assinalar obras literárias. É claro que uma obra ser publicada por uma editora de referência no seu país de origem é, de qualquer forma, já uma primeira garantia: chancelas como a Companhia das Letras no Brasil, a Caminho, a Dom Quixote ou a Cotovia em Portugal continuam a fazer um óptimo trabalho em fazer emergir escritores mesmo contemporâneos. Os prémios também são muito úteis: no nosso catálogo temos publicadas obras de vários prémios Camões (que é um caso especialmente interessante: outorgado por autoridades públicas e não necessariamente ligado a exigências comerciais das editoras, com um júri que abarca quer Portugal, quer o Brasil, sendo um prémio à carreira literária e não à singular publicação, este prémio é de facto uma distinção a ter muito em conta). Isso não quer dizer necessariamente que essas sejam pré-condições básicas e necessárias para acederem ao nosso catálogo de tradução: publicámos recentemente, por exemplo, um texto do guineense Abdulai Silá que nem se encontra no mercado livreiro português (e só há pouco tempo é disponível no Brasil).

CR- Como trabalha a editora na distribuição e divulgação das obras traduzidas? (eventos, jornais, feiras, distribuição em livrarias)

MB - Eu gostaria que conseguíssemos trabalhar melhor, mas com este catálogo e a situação da distribuição em Itália não há muita margem de manobra. A distribuição livreira em Itália é dominada por um só grupo comercial (Messaggerie), cujos accionistas ainda por cima são os mesmos da grande cadeia de livrarias nacional e da chancela editorial Feltrinelli. Os contratos propostos por essa distribuidora são impraticáveis para as pequenas editoras e na maioria dos casos levam à falência da mesma. (Dou um exemplo: o contrato prevê o fornecimento de um certo número de exemplares de todos os livros do catálogo, a pequena editora endivida-se para os imprimir, a distribuidora distribui, depois esses livros vendem pouco, à editora não entra o dinheiro que se esperava e no entanto está a dever à gráfica. Ao mesmo tempo, a editora tem que pagar penalidades por os livros não terem vendido, portanto: o editor tem que ceder à consignação uma grande quantia de mercadoria, claramente fazendo frente aos custos da sua produção, sem garantias. Pelo contrário, a distribuidora é que quer garantias por parte da editora que os livros vão vender, num aspecto em que a editora é completamente impotente). Não assinar um desses contratos é o primeiro passo para as pequenas editoras existirem e resistirem.


Edizioni dell'Urogallo

Perugia - Itália



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