• Capitolina Revista

Camisas-ausência

João Anzanello Carrascoza


As camisas do pai. Sem golas e sem botão, para não engastalhar em nada – o pai carregando, de manhã-à-tarde, do depósito até a carroceria dos caminhões as sacas de cereais, sessenta quilos sobre a cabeça; ele as segurava pelas abas da frente, acima dos olhos, a estopa relando em sua camisa, os dois tecidos, um rústico, outro de algodão, em conversa, e eu a pensar o que estariam se dizendo, e o que a pele de seus ombros ouvia. As camisas do pai. Eu o esperava voltar do trabalho, sentado na soleira da porta, avistava-o ao longe e imaginava sua camisa suja, eu o esperava se aproximar, trazendo a noite em suas espáduas-asas, e, quando o via de perto, eu, antes de passear pelo seu rosto, mirava o estado de sua camisa – a calça pouco importava, era o pai-debaixo, e eu queria o pai-de-cima, o pai-peito, o pai-tronco do qual eu era ramagem. Ele estendia os braços e me pegava no colo (eu, uma pena para quem movia aqueles fardos) e se deixava no assoalho da sala, queria saber de mim, como se eu fosse importante, como se eu não fosse só um menino-aprendizagem. As camisas do pai. Eu não sabia acariciá-lo, deslizando o indicador por uma mancha de seu braço, ou enrolando-o em seus cabelos salpicados de palha, eu não sabia desenhar com os dedos a curva de seu queixo; e, então, como não sabia aferir a terra-carne que ele era, eu pegava o

pano de sua camisa, apalpava seus amassados, detinha-me numa ponta imunda, a afagar um tecido que não era o pai. As camisas do pai. Pelo estado delas, eu sabia a carga que lhe coubera aquele dia, sacas de arroz (a poeira alva), ou de feijão (o cheiro seco); eu sorvia o suor nas dobras de seus braços, nos sulcos de seu pescoço. As camisas do pai, o pai que se foi, o pai que eu só posso, agora, tocar pelas minhas mãos-escrita, as camisas do pai que, declaradamente, são as camisas-ausência do meu amor-desnudamento.


(Conto do livro Utensílios-para-a-dor, a ser publicado pela Editora Faria e Silva)



João Carrascoza. (imagem © Renata Massetti)

João Luís Anzanello Carrascoza é romancista, contista, redator publicitário, professor universitário. Suas publicações incluem Caderno de um ausente e Aos 7 e aos 40, O volume do silêncio, Espinhos e alfinetes e Aquela água toda. Entre seus prêmios destacam-se o Prêmio Jabuti, Prêmio Fundação da Biblioteca Nacional e o APCA.

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