• Capitolina Revista

CÂNCER


texto de Renato Tardivo



(free archive image)

(Está tudo escuro aqui; o cheiro é novo, não o ambiente, e eu tento esquecer o diagnóstico proferido pelo médico – mais parecia um veredito saído da toga de um juiz sádico –; não contei para ninguém (ainda), tenho direito ao segredo, tampouco argumentei mas doutor, sempre acreditei que estava vacinado contra isso, ele não acompanharia o raciocínio e, mesmo que acompanhasse, discordaria; ou talvez julgasse se tratar de alguma manifestação canhestra da doença e salivaria ante a possibilidade de publicar em algum periódico internacional de primeira a sua incrível descoberta, e eu tento deixar isso tudo entre parênteses enquanto me enredo nesse orifício e ela faz careta, se contorce, pede para eu parar e, em seguida, muda de ideia; implora para que eu não pare, não agora, agora, isso, e me acerta o queixo com o joelho e se assusta, ri, recua, para, não para, e aqui de dentro eu ouço sua voz com eco de ondas reverberadas por todo seu corpo, voz que parte daqui e aqui mesmo finda, e afogado nos seus gemidos eu questiono onde a vacina pode ter dado errado, sempre segui à risca a cartilha e ela parecia fazer tanto sentido (ela berra agora, como se eu a fizesse sofrer), vai ver fez tamanho sentido que deu a volta; isso, ela diz, isso, só pode ser isso, eu penso, ela roça uma perna na outra, sinal de que está chegando lá, mas agora me dá com o calcanhar na panturrilha; parece insatisfeita com o meu serviço e talvez esteja certa, eu estou preso ao cheiro novo deste lugar que conheço como a palma da minha mão, preso para não

mais sair, e é o contrário do que sempre fiz, pois a cartilha dizia que, enquanto meu corpo ejaculasse palavra, estaria livre de células autodestrutivas; os textos, crescidos em liberdade, contaminariam uns aos outros, e seria uma escritura sem fim, como a cobra que come o próprio rabo mas vomita no instante seguinte, e dessa forma não haveria núcleo duro, nódulo, esponja; nada dessa natureza cresceria pelo avesso aqui dentro, e aqui dentro, enredado em seus pelos pubianos, lanço mão da última cartada: com a língua transformo seus pelos em palavras, palavras em frases, frases em fluxo, tudo isso azeitado ao seu corrimento espesso, e ela inclina os joelhos para dentro, bate um no outro, uma, duas, várias vezes, falta-me o sangue à cabeça, mas para que preciso disso agora?, basta-me a língua, e num esporro – vômito de afeto – dou sequência à escritura por ora interminável; ela uiva, grita, ladra, e sequer suspeita da matéria-prima deste texto.)



(Este conto foi originalmente publicado no livro Silente (7 Letras, 2012) e, recentemente, foi incluído no e-book Desembarque, coletânea de contos que pode ser adquirida na Amazon.)

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Professor Colaborador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Autor dos livros de contos Do avesso, Silente e Girassol voltado para a terra; da novela Castigo; dos ensaios Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica e Cenas em jogo – literatura, cinema, psicanálise; e do romance No instante do céu, a ser lançado em 2020 pela Reformatório.

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