• Capitolina Revista

As personagens da minha vida - Ricardo Fonseca Mota




Joseph Christmas e Maximilien Aue

Incomodo-me com as constantes e violentas tentativas de tornar o mundo um lugar a preto e branco, uma moeda de cara ou coroa, ou um movimento pendular de dois pratos de uma só balança. Este mundo dicotómico é o lugar do racismo, da misoginia, da xenofobia, da homofobia, das disputas geracionais, dos nacionalismos, da intolerância religiosa, e de outras tantas manifestações de medo. O mundo do bem e do mal, do certo e do errado, do norte e do sul, da direita e da esquerda, do oriente e do ocidente, do homem e da mulher, do meu e do teu, é um mundo onde não gosto de viver.

Joe Christmas e Max Aue são duas personagens que habitam o meu corpo iluminando zonas de sombra dentro e fora de mim. A minha relação com estes dois homens assemelha-se à de um aprendiz com os seus mestres. Conhecê-los mudou a minha vida e é por isso que as lombadas de A luz em Agosto (William Faulkner) e As benevolentes (Jonathan Littell) são dois pequenos altares da minha estante.

O órfão Joe perdeu a mãe no dia do nascimento e a identidade do pai permaneceu um mistério ao longo da vida. No orfanato, as crianças negras chamavam-lhe branco, enquanto pessoas brancas o consideravam negro. Esta indefinição na construção da sua identidade, numa América racista do início do século XX, levou Joe a viver uma vida de conflito consigo e com os outros, procurando incessantemente um lugar onde se sentisse normal e aceite. Joe perseguiu um caminho de redenção que terminou num processo de auto-destruição e desistência. A sociedade empurrou-o para um dos lados, à vez, revelando que o lugar do meio não seria aceitável. Joe libertou-se deste esmagamento apenas com a morte, provocando de certa forma o seu próprio linchamento.

Max Aue foi um jurista alemão, doutor em Direito, nazi e oficial SS, que nas suas memórias nos diz «Não me arrependo de nada: fiz o meu trabalho». Max esteve envolvido no massacre de milhares de vidas humanas e desempenhou funções administrativas junto aos campos de concentração. As suas excelentes capacidades intelectuais e a sua formação clássica não impediram que contribuísse para melhorar o desempenho das acções de extermínio nazis. Cumpriu as suas funções com total conhecimento de causa, por mais desagradáveis ou infaustas que fossem, julgando ser esse o seu dever. E, no final de novecentas páginas, nas quais nos relata com detalhe a sua vida de carrasco, a homossexualidade e a paixão pela irmã gémea, Aue, olha-nos nos olhos e adverte, atenção, eu sou apenas um homem como vocês.

Se a vida de Joe é reveladora da violência exercida pelos riscos que traçamos no chão, os relatos de Max demonstram como cada um de nós, a qualquer momento, pode acabar merecedor da fúria das erínias gregas.


Sobre o autor:


Ricardo Fonseca da Mota. Foto ©Gi da Conceição

Ricardo Fonseca Mota nasceu em Sintra, Portugal, em 1987, cresceu em Tábua e acabou de crescer em Coimbra. O seu primeiro romance Fredo venceu o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís em 2015, foi semifinalista do Oceanos - Prémio de Literatura em Língua Portuguesa em 2017, e está traduzido e publicado na Bulgária. Representou Portugal na 17ª edição do Festival do Primeiro Romance, em Budapeste.

As aves não têm céu é o seu segundo romance. Autor também de Germana, a begónia (2019, teatro), tem textos traduzidos para inglês, espanhol, francês, húngaro, italiano e neerlandês. Formado em Psicologia pela Universidade de Coimbra, é autor, psicólogo clínico e promotor cultural.

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