• Capitolina Revista

André Cáceres

O CONGESTIONAMENTO





“Se ao menos não fizesse tanto calor nos desgraçados automóveis, se essas árvores da direita ficassem finalmente para trás, se o último número do velocímetro acabasse de cair no seu buraquinho preto em vez de continuar suspenso pela cauda interminavelmente.” A Autoestrada do Sul - Julio Cortázar


Manoel tamborilava impaciente ao volante. Conforme o silêncio se prolongava, o constrangimento crescia ocupando o diminuto espaço no interior do carro. Sentindo-se sufocado, abriu o vidro da janela e colocou o rosto para fora.

— O que está fazendo? — Eram as primeiras palavras que seu Alaor dizia em horas, pronunciadas com ares de reprovação e o timbre grave de quem havia acabado de acordar.

— Só quero tomar um ar, pai.

— Um ar, né? E ser assaltado, provavelmente. É isso que você quer?

Manoel tratou de fechar o vidro e ligar o ar condicionado, mas seu Alaor continuou resmungando.

— Parece que não sabe o que é morar em uma cidade como São Paulo. Até eu, que passei os últimos anos enclausurado naquele palacete deprimente, sei que não se pode fazer isso.

— Tá bom, pai.

— Duvido que seu irmão…

— Meio-irmão.

— … faria uma coisa impensada dessas.

— Ah, é? E por que você não ficou esperando ele te buscar?

— Seu irmão tem mais o que fazer. É um importante homem de negócios. Não é um…

— Um o quê?

Seu Alaor se calou. Sua ingratidão não era ilimitada ao ponto de ele chamar o filho de vagabundo num congestionamento daqueles.

— Quer saber? — disse Manoel. — Eu não vou ficar ouvindo isso. — Ele desafivelou o cinto, abriu a porta e desceu do automóvel. No mesmo instante, começou a soar uma buzina intermitente e aguda, cada vez mais próxima. Manoel saltou para dentro do carro a fim de se esquivar do motoqueiro que passou rente ao seu corpo, quase acertando a lataria do veículo. Assim que o zumbido da motocicleta se esvaiu, ele escutou o xingamento do sujeito. Voltou

seu olhar para o pai, que manteve seu silêncio esfíngico, incapaz de se surpreender com um novo fracasso do filho.

Depois de longos minutos olhando distraidamente pela janela, seu Alaor se voltou para Manoel, desta vez sem o ar de reprovação que lhe era característico em relação ao filho.

— Ei, rapaz, será que você pode descontar o trânsito dessa corrida?

— Como assim?

— Sabe… Parar o taxímetro enquanto estivermos aqui.

Era um dos cada vez mais frequentes lapsos de memória que o pai apresentava nos últimos tempos e que o tornavam momentaneamente irreconhecível.

— Tudo bem, senhor — disse o filho, entrando no papel a ele atribuído pela mente paterna. — Não se preocupe. O tempo que estivermos parados não vai contar.


Manoel e seu Alaor já estavam presos naquele trânsito havia doze horas, sem qualquer indício de que os carros diante deles andariam em um futuro próximo. É assim mesmo em São Paulo. Às vezes isso acontece e é bastante inconveniente, mas é algo a que os cidadãos aprenderam a se adaptar com relativa facilidade nos últimos anos. Puxar o freio de mão e esperar os vendedores ambulantes ocuparem o espaço entre os carros transformando-o num restaurante drive-in não é tão incômodo quanto soa. Pelo menos não sem a companhia de seu Alaor, que passara as primeiras horas criticando o itinerário escolhido por Manoel.

— O que está fazendo? Por que você vai pegar a Vinte e Três de Maio? Ei, cuidado com o carro! Freia… Freia… A Vinte e Três em pleno horário de pico? Você está louco. É óbvio que vai estar parada. Você não pensa? Para que você usa essa cabeça, rapaz? Freia!

O motivo pelo qual ambos haviam ido parar naquele Volkswagen imundo por horas — potencialmente dias, semanas ou meses —, no entanto, era digno de comemoração. Seu Alaor havia sido homenageado pelo quartel que comandara por algumas décadas. Mas nem mesmo essa ocasião poupou Manoel do característico mau-humor do pai.

Por sorte, com a garoa que teimava em permanecer quase suspensa no ar naquela noite, seu Alaor acabou vencido pelo sono e se refugiou no banco de trás. Isso deu a Manoel algumas horas preciosas de silêncio e contemplação. Horas que ele acabou por desperdiçar remoendo a ausência do pai em sua infância, lembrando-se do dia em que seu Alaor saiu para comprar um filtro holográfico e não voltou mais.


Quando o primeiro raio de luz lambeu a face de Manoel, nenhuma buzina soava ao redor. Ele sorveu a baba de seu queixo e notou que os veículos não haviam se movido um centímetro

sequer durante a madrugada. O silêncio matinal dominava a avenida sobre o asfalto úmido de orvalho, a não ser por uns poucos motores que ainda roncavam — há quem faz funcionar o carro às vezes quando amanhece frio em um trânsito como aquele para não deixá-lo enferrujar, ou algo do tipo. Manoel era músico; nada compreendia de mecânica, portanto não sabia o motivo por trás do curioso hábito automobilístico.

Ele despertou aos poucos, como quem sai de uma vaga bem apertada num estacionamento qualquer. Ajustou o espelhinho retrovisor para escovar os dentes e retirou a cafeteira do porta-luvas. Abriu a janela e cuspiu o creme dental no asfalto mesmo.

— Foi essa a educação que eu te dei?

— Bom dia para você também, pai.

— Vai, me dá logo um pouco de café. Esse banco do seu carro não poderia ser um pouquinho mais confortável? Ora, o que é isso, rapaz? Coloque um pouco de açúcar nesse negócio, isso aqui está intragável.

— Por que você não pediu para o Michel ir buscá-lo na cerimônia? Com sorte, ele te levaria de helicóptero para uma das mansões dele.

— Como está o seu irmão?

— Meio-irmão.

— Estou com saudades dele. Ele está bem?

— Tirando a Polícia Federal na cola dele, farejando as empresas de fachada nos paraísos fiscais, deve estar ótimo. Não sei. Não falo com ele há anos, desde que a interesseira da mãe dele morreu.

— Mais respeito, moleque. Ela era minha companheira.

— Diferente da minha mãe, né? Na vez dela, você nem foi ao velório.

— Não vamos entrar nesse assunto agora, Manoel.

— Por que não? Vamos aproveitar o tempo livre que temos agora que estamos em isolamento por sabe-se lá quanto tempo nesse trânsito.

Seu Alaor se ajeitou no banco traseiro, claramente desconfortável. Não disse palavra alguma. Mexeu o café para desprender alguns cristais de açúcar do fundo da xícara.

— Você está com saudades de Michel, pai? Então vamos lá, vamos falar com ele.

Com alguns toques nos botões do volante, Manoel projetou uma videochamada no para-brisas do Volkswagen. Ele virou a câmera para seu rosto de modo a esconder a presença do pai. Depois de alguns chiados insistentes, uma voz distante foi sintetizada pelos altifalantes do automóvel.

— Não, eu tenho que atender, um momento… Pronto?

— E aí, Michel. Há quanto tempo, hein?

— É. O que foi?

— Tudo bem?

— Olha, eu estou com um pouco de pressa.

— Hã… Tá. É sobre o pai…

— Se você quiser discutir os termos da herança, eu sugiro que marque um horário com o meu advogado.

— Não, não é isso. O pai foi homenageado pelo…

Seu Alaor acenou e esticou o pescoço para aparecer na imagem e falar com Michel.

— Oi, pai. Tudo bem?

— Estou com saudades, filho.

— Tá, eu também. Olha, eu realmente estou com pressa. Preciso ir.

— Esse aí é o seu filho favorito — zombou Manoel depois que a ligação foi abruptamente desligada.

— Ele é um rapaz ocupado — constatou seu Alaor, desanimado, afundando-se num silêncio prolongado. — Rapaz, podemos parar o taxímetro enquanto durar o trânsito?


Não foi o pior engarrafamento da história de São Paulo. Ainda na primeira semana os carros já começaram a acionar seus motores e andar alguns metros a cada dia. A vida permaneceu em suspenso por dias que se sucediam homogêneos, dando a impressão de uma interrupção no fluxo do tempo. Do lado de fora, os vendedores ambulantes delineavam seu bailado sincrônico para escapar dos motoqueiros e dar vazão ao vagaroso movimento dos carros.

Em uma daquelas manhãs iguais, Manoel acordou com o pai encarando-o pelo retrovisor, com uma expressão confusa. O pai desafivelou o cinto de segurança e respirou fundo.

— Meu bom jovem, diga-me quanto lhe devo pela corrida. Acho que vou a pé.

— O que você está dizendo, pai?

— Sabe como é, tenho mulher e filho me esperando em casa. Não posso demorar.

Seu Alaor tentou abrir a porta, mas Manoel a travou com um comando. Ele insistiu baixando o vidro, mas sua ação também foi sobreposta pelo motorista.

— Pai, você quer ser assaltado? Fique quietinho aí.

— Ora essa, só quero tomar um ar.


Antes que o Volkswagen pudesse chegar ao palacete de seu Alaor, nos Jardins, o homem já não se recordava de mais nada. Parecia outra pessoa. Manoel disfarçava seu choro às madrugadas. Sempre enxergara no pai uma figura de força. Ver aquele colosso tombar diante de si tão repentinamente não era fácil para ele. Quando finalmente chegaram ao endereço, seu Alaor teve de ser auxiliado para deixar o carro. Seus músculos atrofiados não o sustentavam plenamente de pé sem algum tipo de apoio. Manoel o carregou até a calçada e hesitou antes de entregá-lo ao cuidador que o esperava na soleira da porta.

— Muito obrigado, meu jovem. Você é muito gentil, é um bom rapaz. Sabia que você me lembra muito o meu filho? Logo ele deve estar de volta da escola, e aí você verá. Eu tenho uma foto dele aqui. Um momento.

Seu Alaor retirou do bolso de sua farda um pedaço de papel surrado e amarelado pelo tempo, uma rara fotografia impressa naqueles tempos de telas luminosas. Na imagem, era possível ver uma criança magrela de pele acobreada e cabelos crespos revoltos. O papel borrado não dava nitidez à foto, mas atrás havia uma inscrição quase ilegível feita a lápis, com o nome da criança representada. Apenas metade das letras podia ser decifrada. A primeira era M, e as duas finais eram EL.

Manoel não forçou a vista para dirimir a dúvida sobre quem a imagem retratava. Guardou a fotografia novamente no bolso da vestimenta de seu Alaor e abraçou-o calorosamente, como não fazia desde tempos imemoráveis em sua infância


O AUTOR



André Cáceres é escritor, crítico e jornalista. Autor de Nebulosa (Patuá, 2021) e Cela 108 (Multifoco, 2015) e coautor do livro-reportagem Corações de Asfalto (Patuá, 2018), tem contos publicados na Revista Gueto e nos jornais Cândido e RelevO, além das antologias Realidades Voláteis & Vertigens Radicais (Alink, 2019), Era de Aquária (Oito e Meio, 2019) e Kriptovisões do Futuro (Alink, 2020). É finalista do V Prêmio Internacional de Teatro Jovem, da editora espanhola Dalya, com a peça Esperando o Dono, escreve sobre literatura para o jornal O Estado de S. Paulo e ministra oficinas de crítica literária.

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