• Capitolina Revista

Ana Cássia Rebelo

UM HOMEM COMO OS OUTROS




2 de Abril


Armaram-se os andaimes. Foram subindo pelas paredes como ervas daninhas. Homens vestidos com fatos macaco azul petróleo chegaram em camionetas camarárias e trataram de tudo com profissionalismo. Lavaram as fachadas com máquinas de alta pressão. Limparam manchas de humidade. Taparam frestas, buracos, rachas. Aplicaram por fim a primeira demão de tinta no bloco A. Os habitantes do bairro olharam para o prédio. Um homem gordo, de cara fechada e bigode de morsa, ainda tentou criticar a cor:

- Um amarelo assim, tão vivo, até ofusca os olhos. Se os outros prédios forem pintados da mesma cor ninguém vai conseguir andar de olhos abertos!

O encarregado da obra explicou que, de acordo com o projecto camarário, cada prédio seria pintado de uma cor diferente e as empenas laterias das últimas torres, as que se viam da estrada, iriam servir de tela para um grande artista de arte urbana. Os habitantes do bairro camarário ouviram a explicação. Qualquer receio que pudessem ter em relação às cores escolhidas logo desapareceu. Estavam habituados a viver naquelas torres sem cor definida. De longe, vistas da estrada que serpenteava a serra em direcção ao mercado abastecedor, as torres pareciam monstros de papelão. O tempo comera há muito a tinta originária e os mosaicos das entradas tinham caído aos poucos, como dentes podres, deixando os prédios parcialmente descarnados.


8 de Abril


Quando a fachada do primeiro prédio acabou de ser pintada os habitantes do bairro experimentaram uma estranha alegria. Não estavam à margem, faziam parte de um todo. Afinal alguém se preocupava com eles. Apenas Baltazar Abelha não gostou das obras que a câmara resolvera fazer no bairro. Vivia no bairro há alguns anos. Viera de longe. Atravessara meio mundo para ali chegar. Viu o primeiro prédio ser pintado com inquietação, mas não falou com ninguém, guardou para si a revolta. Percebia bem o que se passava. Achava inaceitável que ninguém tivesse tido o cuidado de, antecipadamente, lhes explicar o que se estava a passar. Os apartamentos, velhos, pequenos, húmidos, não eram propriedade dos habitantes, tinham sido atribuídos depois de longos processos administrativos onde se tinham averiguado critérios e requisitos que Baltazar Abelha não compreendia totalmente. Porém, pensava, apesar dos apartamentos não serem seus, alguém deveria ter explicado alguma coisa aos habitantes do bairro.


15 de Abril


Baltazar Abelha estava na paragem do autocarro, à espera de Aninhas, quando escutou a conversa de duas mulheres.

- O nosso bairro vai ficar bem bonito!

- Pois vai, vizinha. Vai parecer o bairro do lado de lá da estrada!

Depois da travessia, Baltazar Abelha tornara-se num homem de poucas conversas. Habituado a remoer os problemas para dentro, fazia grandes sorrisos, aceitava que outros decidissem o seu futuro sem nada questionar. Naquela manhã, no entanto, quando ouviu aquela frase – O nosso bairro vai ficar bem bonito! –, sentiu o rosto ferver e o peito subitamente crescido. Era como se um vulcão tivesse entrado em erupção dentro de si. Antes que se desse conta, as palavras saíram-lhe da boca como uma torrente de lava.

- Em vez da pintura das paredes, a Câmara devia era ocupar-se dos elevadores avariados e das infiltrações nos apartamentos! Há muitos anos que as casas se enchem de bolor. Têm um cheiro que não se aguenta. O ar é húmido. As paredes estão cheias de manchas. Os tacos do soalho saltam como gafanhotos! O vento entra pelas frinchas das janelas e faz voar as cortinas. As crianças do bairro andam sempre doentes. O meu filho, por exemplo, respira como um cão. É uma aflição ouvi-lo tossir!

Assim falou Baltazar Abelha. Depois calou-se. As duas mulheres escutaram-no em silêncio. Não ligaram à conversa. Nem sequer à história do menino, aflito, dormindo encostado a paredes molhadas, acordando junto de janelas mal calafetadas, tossindo como um cão.

- É bom viver num prédio bonito que parece novo! É melhor que nada. Se o vizinho não gosta pode voltar lá para a sua terra… - Respondeu uma mulher. Baltazar Abelha não respondeu: a evidência era muita, o raciocínio simples, a sinceridade desarmante.


16 de Abril


Baltazar Abelha acordou tarde. A mulher saíra de madrugada para o refeitório onde trabalhava. Levara o menino que tossia como um cão. Baltazar Abelha estava prestes a ir sentara-se na sanita, quando bateram à porta. Foi abrir. Um homem vestido com um fato-macaco disse-lhe bom dia e depois, com bons modos, pediu-lhe que tirasse o estendal e o resto das coisas que estavam na varanda porque naquela manhã iriam começar a pintar a fachada norte do Bloco B. Baltazar Abelha irritou-se com a cortesia do homem. Não estava habituado a que o tratassem de modo atencioso e cordato. Sentiu novamente um vulcão dentro de si e falou.

- O senhor desculpe, mas eu não vou tirar o estendal, nem os vasos, nem o triciclo do meu filho.

- E por quê?

- Não quero a minha varanda pintada.

O homem escutou-o. Desceu os sete lances de escadas. Chegou cá abaixo e explicou ao encarregado da obra que o morador do 7º A se recusava a tirar os pertences da varanda, o que impedia a pintura do prédio. O encarregado da obra era um homem sábio, sabia que, sempre que nos aparece um problema pela frente, o melhor que há a fazer é torná-lo no problema de uma outra pessoa e esperar que ela o solucione. Olhou para a janela do 7º A. Viu um homem a espreitar. Nem por um momento lhe passou pela cabeça subir os sete lances de escada para falar com o morador. Explicou aos trabalhadores que tratassem de pintar a fachada norte do Bloco B com excepção da varanda do 7º A. À tarde ligaria para a Divisão de Gestão da Habitação Municipal.

Foi assim, por vontade de Baltazar Abelha, que o Bloco B foi todo pintado de azul cerúleo com excepção da pequena varanda do 7º A, que se manteve de um tom indefinido de amarelo. Baltazar Abelha sentiu uma enorme satisfação quando, como acontecia todos os dias, saiu à hora do almoço para ir beber um café. Entrou no estabelecimento, cumprimentou toda a gente, e, para espanto da empregada, sua conhecida, para além da bica curta, pediu um cálice de aguardente. Celebrou desse modo o seu gesto de coragem.

Aninhas, a sua mulher, voltou do refeitório onde trabalhava já passava das seis horas. Trazia as mãos muito ásperas por causa de um detergente novo que usavam agora para limpar os fornos industriais. O menino que tossia como um cão vinha pela sua mão, tristonho e ranhoso, uma lagarta de ranho verde espreitando-lhe do nariz. Aninhas olhou para o prédio esperando que o vislumbre das paredes pintadas lhe alegrasse o fim do dia. Tita, que morava com os pais no 2º D, telefonara-lhe durante a manhã para lhe dar a novidade. Passara o dia a pensar no assunto. Com a varanda pintada, havia de comprar dois vasos rectangulares e plantar coentros, salsa e malaguetas. Com as malaguetas tentaria fazer um piri-piri igual ao que se usava na casa dos seus pais. Decidira também comprar um espanta-espíritos. Na ilha, à porta da casa do alemão, havia um espanta-espíritos feito com conchas e tubos de metal. Sempre que lhe dava o vento, fazia um barulho engraçado, um som delicado que provocava em quem o ouvia uma sensação de bem-estar e tranquilidade.

Olhou para cima. Reparou que a varanda do seu apartamento não estava pintada. Subiu os sete lances de escadas, um saco de compras mãos, o menino queixoso atrás. Quando Baltazar Abelha lhe explicou que não deixara pintar a varanda, apesar do cansaço que sentia, Aninhas gritou. Não conseguia compreender as razões do marido. Depois de tudo o que tinham passado para ali chegar, depois de tantas incertezas sobre o futuro, por que lhe negava aquela pequena alegria? Quem era o marido para afrontar a Câmara? Apesar de já não se suportarem, era raro discutirem. Baltazar tratava a mulher com benevolência, sabia que, ao contrário de si, há muito desempregado, trabalhava desde que acordava até que se deitava. Acabava por isso por fazer tudo o que Aninhas pedia. Naquela noite, porém, não quis ceder. Tinha dentro de si um vulcão

que a qualquer momento poderia explodir. A mulher riu-se com despeito e falou-lhe da sua condição.

- Tu nem trabalhas! Sou eu que te sustento e ao nosso filho.

Baltazar fez um gesto que há muito não fazia. Ergueu a mão como se lhe fosse bater. A mão ficou suspensa no ar. Os olhos de Aninhas encheram-se de lágrimas. Mostrou-lhe as mãos vermelhas e gretadas.

- Doem-me as mãos de lavar loiça! – gritou, e foi para o quatro chorar.

Baltazar deitou-se perto do menino e adormeceu ouvindo a sua respiração pesada. Acordou pouco depois. Passou a noite sem dormir.


17 de Abril


Na manhã seguinte foi ter com o encarregado da obra e explicou que tinha mudado de opinião. O encarregado encolheu os ombros.

- A sua sorte é que ainda não desmontámos os andaimes.

Ao meio-dia, como de costume, Baltazar entrou no café. Não cumprimentou ninguém. Voltou a pedir apenas uma bica curta.


8 de Maio


Passaram três semanas. Os outros prédios foram sendo pintados. Uns de amarelo, outros de cor-de-rosa, os mais pequenos, que ficavam junto da linha de comboio, de verde azeitona. Em pouco tempo o bairro camarário parecia aquilo que não era. Sem os seus habitantes, que insistiam em hábitos entranhados, roupa pendurada, cobertores arejando nas janelas, mulheres a conversar na rua, fogareiros nas varandas, poderia passar por um dos bairros residenciais que ficavam do outro lado da estrada e tinham nomes bonitos: Urbanização da Colina, Torres da Rosa, Varandas do Rio.

Uma mulher velha, ao reparar num bando de rapazes que se preparava para grafitar a parede ao lado do minimercado, não se conteve e gritou:

- Levam nessas trombas se vos apanho a pintar as paredes cá do bairro!

Os rapazes escutaram e prometeram que passariam a pintar apenas as paredes dos bairros residenciais que ficavam do outro lado da estrada. No fundo, também apreciavam a nova harmonia estética do bairro, dispensavam a miséria, a sujidade e a confusão. À tarde, pouco passava das três, o grupo de rapazes atravessou a estrada e entrou num bairro onde havia jardins interiores, seguranças fardados à porta de cada entrada e monovolumes estacionados na rua.

Baltazar Abelha continuava amuado. Pouco falava. Não respondeu quando Aninhas o chamou para ver os pezinhos de salsa que cresciam nos vasos. Subia os sete lances de escadas e dentro

do prédio as paredes não estavam pintadas de azul cerúleo. Os corredores continuavam a cheirar mal. O filho continuava a dormir junto de uma parede molhada. Também continuava a tossir como um cão.


9 de Junho


O ar já não cheirava a tinta fresca. Pela manhã, muito cedo, chegaram várias carrinhas da Câmara. Os funcionários armaram um pequeno palanque, parecia a peanha de um santo, e montaram na praça um recinto com mesas e cadeiras de plástico. Trouxeram arcas frigoríficas com coca-colas, sumos e cervejas. Ligaram um altifalante que lançava um som muito agudo. Os habitantes do bairro camarário quiseram saber o que se passava. Alguém explicou então que o presidente da Câmara e o artista de arte urbana, o tal que pintara os grandes pássaros que se viam da estrada, viriam inaugurar as obras de reclassificação do bairro camarário. Não tardavam a chegar. Devia vir até a televisão. Gerou-se logo um burburinho. As mulheres correram a vestir as suas melhores roupas e gritaram às crianças mais pequenas que limpassem os olhos e os narizes. Aninhas usou um vestido novo, com aplicações roxas, comprado num saldo. Estava quase bonita. Apanhou o cabelo e pôs-lhe um gancho com uma flor.

Ao meio-dia o presidente da Câmara chegou. Veio num automóvel preto. Um aparato bestial. Saiu sorridente do carro, apertando o segundo botão do casaco de fazenda escura. Usava de uma cortesia que parecia sincera. Apertou as mãos dos homens, deu beijinhos às mulheres. Pegou numa criança ao colo e, extremoso, com muito cuidado, voltou a colocá-la nos braços da mãe. Depois foi ao palanque e falou. Explicou que o executivo camarário governava sempre para o povo.

- Estamos a construir o futuro e o futuro passa por ali! – Disse a certa altura com entusiasmo, e procurou olhar directamente para a câmara de filmar.

Foi muito aplaudido. Aninhas também bateu palmas. Com força. Baltazar Abelha, que por ali andava, olhou para ela. Pelos vistos já estava habituada aos novos detergentes. Não lhe doíam as gretas nas mãos.

O presidente da Câmara despediu-se pouco depois. Desculpou-se por não poder ficar na festa. Tinha um compromisso. Deu mais apertos de mão e beijinhos. Uma velhinha enrolou-se à sua volta como uma serpente. No trajecto do palanque para o automóvel, naquela confusão de gritos e abraços, Baltazar Abelha pensou em interpelar o Presidente da Câmara, acabar com a festa, dizer-lhe o que lhe ia na alma: os vizinhos podiam ser uns pobres coitados, uns analfabetos, mas ele não era, percebia bem a esmola que lhes davam; que não o tratassem com condescendência porque, ao fim ao cabo, ele era um homem igual aos outros. O presidente da Câmara foi avançando na sua direcção. A multidão não o deixava seguir. Todos lhe queriam dar um beijinho, um aperto de mão, agradecer-lhe a obra no bairro. Baltazar Abelha procurou o vulcão

dentro de si, mas não o encontrou. Quando o presidente da Câmara passou por si, vendo-o, assim pasmado, olhar fixo, parou para o cumprimentar.


30 de Dezembro


O Inverno chegou. As chuvas fizeram estalar a tinta dos prédios. Esboroaram-se as paredes. Aos poucos renasceram os monstros de papelão. De vez em quando, em carrinhas de vidros espelhados, aparecem alguns turistas para ver os pássaros que o grande artista de arte urbana pintou nos prédios que se vêem da estrada. As paredes voltaram a encher-se de grafitis. Baltazar Abelha pediu uma lata de spray a um dos rapazes do bairro e, na parede do minimercado, escreveu “Já não te amo, Aninhas.”



A AUTORA

Ana Cássia Rebelo é jurista e publicou em 2015 o livro Ana de Amsterdam, baseado numa recolha de textos do blogue com o mesmo nome.

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