• Capitolina Revista

Aida Gomes




ORAÇÃO


Nossa Senhora do Rosário de Fátima, rogai por nós. Nem sei se vou conseguir pregar olho. É tanta a aflição! Anda aí um vírus a matar a gente, mas com ele ou sem ele, não passa um dia que não morra alguém. Os que morrem na cama vão para a terra da verdade sem dar por ela. Os anjinhos vão direitinhos ao Céu. E a minha amiga Pureza, que Deus a tenha, estava tão mal da cabecinha. O médico receitava-lhe comprimidos para isto e para aquilo e ela, volta e meia, tomava os comprimidos todos de uma vez. Vinha a ambulância e lá ia ela para o hospital. Os médicos faziam-na vomitar tudo e depois mandavam-na para casa. E foi ela agora meter-se debaixo do comboio. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que a Nossa Senhora nos livre dos maus pensamentos. O mafarrico metendo-se-nos na cabeça, ninguém o cala: “Atira-te! Vá! Depressa!” Ele não descansa até a gente fazer o que ele quer. Foi ela meter-se à frente do comboio, sabendo que o caminho é dele e de mais ninguém. Livre-nos o Senhor da tentação. “Ai Pureza, Pureza, que a Nossa Senhora te perdoe a má ação.” O povo todo a dizer que a culpa foi do comboio, que vindo do Porto vem sempre do lado de lá, e desta vez veio do lado de cá. “Caluda, almas de Deus! Tenham tento nessa língua!” A nossa gente é muita tosca. “Então não percebem que foi o mafarrico? Vade retro Satanás!” Não foi outra coisa. Viesse o comboio de que lado viesse, o Demo estava-lhe ferrado na cabeça. O comboio veio na hora que veio, deste lado ou do outro, e ela lá ficou. Desde que ela descobriu que o marido fez filho noutra mulher, ela ficou mal da cabecinha. “Ai Pureza, Pureza… O melhor era nunca teres casado.” O marido, um trombudo, carrancudo, mais devia era ter ficado solteiro. “Então Pureza, um filho feito noutra mulher é lá motivo para tomares comprimido todos de uma vez? Ganha juízo, rapariga.” E vai ela, deixa de tomar comprimidos e mete-se debaixo do comboio? Valha-nos Deus. Vieram os bombeiros. A ambulância também, mas já não podiam fazer nada. Quando era dos comprimidos, ia sempre visitá-la no hospital. Dava-lhe força, “Ó pomba, filho é produção, ora essa.” E vai ela morrer assim… Um vírus à solta e nem a gente pode ir ao funeral. Eles viviam à nossa beira. A família passava mal. Os que hoje se queixam, não sabem o que é passar fome. Não ter um pãozinho, não ter nada. Nós sempre repartimos a nossa comida com eles. Era muita filharada... Os pais dela ainda foram nossos caseiros. No tempo em que os montes tinham árvores e flores. O nosso quintal cheio de abóboras, macieiras e diospireiros. Valha-nos Deus, eram coelhos e verdes por todo o lado. Era cachopada e eram gatos. Os pais da Pureza não tinham dinheiro para brinquedos e nós dávamos-lhes gatos para eles brincarem. Era uma alegria o dia inteiro, a papagaiada da cachopada atrás dos gatos. Hoje está tudo terraplanado e a gente só vê gatos vadios. Houve um incêndio e foram-se as árvores. Os meus pais perderam tudo. Eu e a Pureza entrámos juntas na fábrica de têxtil. No tempo em que não havia estradas e era preciso ir pela linha do comboio. Outra maneira não havia para chegar à fábrica. Atravessávamos a ponte de ferro e o comboio passava a raspar por nós. Os olhos fechados. Nós as duas agarradinhas uma à outra. Parecia que íamos rio abaixo. Um dia, íamos nós a atravessar a ponte, caiu-nos em cima uma saraivada. As saraivas são bolinhas brancas que entram na boca e não deixam a gente respirar. Atravessámos a ponte. Já a saraiva nos ia pelos joelhos. Não se via nada. Era tanta saraiva. Encostámo-nos a um muro. A saraiva já nos chegava à barriga. A Dona Fina, que vivia depois da ponte, é que nos ouviu chamar pela Nossa Senhora de Fátima e trouxe-nos um cobertor. A saraiva já nos ia abaixo do queixo. Tapámo-nos bem tapadinhas e só depois de a saraiva aclarar é que nos metemos no carreiro que ia ter à fábrica. Estávamos atrasadas e a nossa sorte foi que o encarregado era nosso amigo. Não ralhou connosco. Olhou para nós e disse-nos: “Ide-vos para as vossas máquinas, mulheres!” E foi a Pureza meter-se agora debaixo do comboio. Valha-nos Deus, a parvoíce! Tivesse ela fé na Nossa Senhora e rogasse que o sono eterno a encontrasse na cama. Como eu faço. Todos os dias. Chega a hora da televisão. Notícias do vírus. Notícias do estrangeiro. Mães fugidas das guerras à procura de uma nação onde haja um pratinho de sopa para dar às criancinhas. As notícias só dão desgraças. Desligo a televisão e vou-me deitar. Medo do vírus não tenho. A Nossa Senhora de Fátima avisou-nos: “Preparai-vos, que desta vez não haveis de contemplar o dilúvio. Em vez de água, havereis de contemplar um grande fogo, que Eu pedi ao meu Filho para ter pena das criancinhas.” A Nossa Senhora não quer que os anjinhos morram afogados e pediu, “Deixai as criancinhas morrer num instante nas chamas de um grande fogo.” Eu não tenho medo do fim do mundo, nem do grande fogo. Eu rezo todas as noites. Deitada na cama. Sete anjos rezam comigo. Três aos pés e quatro à cabeceira. A Nossa Senhora do Rosário na dianteira a dizer-me que descanse os olhos e adormeça, e que não sonhe com coisas más.


SOBRE A AUTORA


Aida Gomes nasceu em Angola, estudou Sociologia e Estudos do Desenvolvimento na Holanda. Publicou em 2011 o romance “Os Pretos de Pousaflores” (D. Quixote/Leya, Lisboa). Tem textos publicados nas revistas InComunidade e Buala; Development Workshop (Luanda); Occasional Papers Series, Universidade de Nijmegen (Holanda); Revue Noire (Paris); Jornal DEMOS, (Maputo); Furies Thema (Nijmegen, Holanda).


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