• Capitolina Revista

Afonso Cruz - As personagens da minha vida

coluna de Gabriela Ruivo Trindade



A square


Stefan Zweig conta sobre Balzac o seguinte episódio, em O mistério da criação artística:

“Um dia, um amigo de Balzac entrou sem avisar no seu estúdio. Balzac, que na época trabalhava num romance, deu meia volta, ergueu-se num salto, pegou no amigo pelo braço e, num estado de grande exaltação, exclamou com lágrimas nos olhos: «Que horror! A duquesa de Langeais está morta». O visitante olhou para ele perplexo. Conhecia bem a sociedade de Paris, mas nunca ouvira falar da tal duquesa de Langeais e, de facto, não existia uma duquesa com esse nome: era apenas uma das personagens do romance de Balzac. No momento em que o amigo entrou, Balzac descrevia o momento da morte da duquesa, e tendo aquela morte tão presente, como se a tivesse visto com seus próprios olhos, ainda não tinha acordado do seu sonho criativo. Só quando notou a surpresa do visitante é que se apercebeu de que estava novamente neste mundo, no da realidade."

De facto, a solidez de uma personagem bem construída consegue arrebatar-nos, sejamos seus criadores ou seus leitores, e de algum modo transforma-nos.

Tendo sido desafiado a escolher uma e a falar dela, sou naturalmente acometido pela injustiça de ignorar todas as outras que me marcaram e, por isso, ver-me na desesperada situação de querer nomear várias, mesmo que de passagem, como Corto Maltese e a tensão dos seus diálogos, muitas vezes construída através de vinhetas silenciosas que culminam numa frase espirituosa, ou Zorba, que encarnava a humanidade epimeteica numa personagem telúrica e imprevisível. Escolho, enfim, uma figura geométrica, um quadrado. Edwin Abbott Abbott (1838-1926) imaginou um mundo plano, a Planilândia (Flatland), composto de duas dimensões. Nesse mundo habitado por figuras geométricas, cuja quantidade de lados determina o escalão social – que culmina no círculo –, encontramos uma alegoria engenhosamente concebida e que pode ser interpretada de inúmeras maneiras e por várias disciplinas. Nesse mundo, um quadrado é um dia visitado por uma esfera, um ser tridimensional, inconcebível para o protagonista. Isto fará com que este quadrado, chamado A Square (que pode ser traduzido por “um quadrado” ou “quadrado A”, e que há quem especule ser uma alusão ao nome do autor), se torne uma espécie de Sócrates ou Prometeu ou Cristo.

Não devem existir muitas coisas mais aborrecidas do que um quadrado – ou mais planas, ou mais frias – e, no entanto, partindo de tão pouco, é possível construir uma personagem inesquecível. Não creio que, neste caso específico, emocione como a duquesa de Balzac, mas apenas porque não era essa a intenção de Abbott Abbott, que pretendeu, creio, afectar a razão mais do que o sentimento. Mas a construção de uma personagem como esta garante-nos que é possível fazer com que um leitor grite escandalizado, à semelhança de Balzac: Que horror! prenderam o Quadrado A!



O AUTOR

Afonso Cruz (1971) é escritor e ilustrador. Desde 2008, ano em que se iniciou na escrita, publicou mais de trinta livros, entre romances, teatro, não-ficção, ensaio e álbuns ilustrados. Colabora regularmente em jornais e revistas e os direitos dos seus livros foram vendidos para vinte línguas.

Alguns prémios e distinções: Prémio Literário Maria Rosa Colaço, Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa SPA, Prémio Fernando Namora, Prémio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil do Brasil (FNLIJ), Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga/Associação Portuguesa de Escritores e Prémio Nacional de Ilustração.


Afonso Cruz (1971) is a writer and illustrator. Since 2008, when he began his writing activity, he published more than thirty books, among novels, theatre, non-fiction, essays and picture books. He’s a regular collaborator in newspapers and magazines. His work has been translated into 20 languages.

Some prizes and awards: Prémio Literário Maria Rosa Colaço, Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa SPA, Prémio Fernando Namora, Prémio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil do Brasil (FNLIJ), Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga / Associação Portuguesa de Escritores and Prémio Nacional de Ilustração

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