• Capitolina Revista

A poesia de Edimilson de Almeida Pereira / Poetry by Edimilson de Almeida Pereira

Traduzidos para o inglês por *Steven White / Translated into English by Steven White




EMISSÁRIOS

“Exu é múltiplo e indômito... Como a própria vida,

transforma-se sem parar, e assim faz o universo

funcionar. Ficou com o encargo de receber as oferendas e

distribuir os dons. ” (Monique Augras)

1/ O ENCONTRO

Como a cidade no mofo a rosa de um morto sobre os jardins. Estaríamos aliviados se a limpeza dos lustres não rompesse a pedra enigmática que conduzimos. Nossa morte repousa, vontade merecida de um incêndio. Também eles desmontam as flores auxiliados pelos arlequins. E não abemos porque somos a intenção dos raios. Como a cidade a rosa de um morto nas escolas.

“Ele transforma tudo, por ter engolido e devolvido

tudo. Exu é a vida, com todas as suas contradições e

sínteses. ” (M.A)

2/ ENCOMENDA

Rejeitamos proteção pela ausência do que entregamos. Deveríamos dizer-lhes, mas talvez perdessem a barba na constelação dos esqueletos. As toalhas sobre as marquises, talvez lhes tirássemos a vida. Mas a encomenda nos acompanha e um livro se castiga na manhã das palavras. Se lhes disséssemos arruinariam as esquinas onde se amam as flechas. Passemos sob as árvores.

“Exu é a unidade que se multiplica até o infinito...

Tudo o que se une, se multiplica, se separa, se

transforma, tudo isso, é Exu. ” (M.A)

3/ ANDAÇÕES

E sob os canais de uma cidade onde o beijo martiriza os bosques. Logo estaremos na estação e nenhum orvalho cederá. As esquinas afiam severamente o destino. Então o abraço, noutra cidade, e elas se sucederão. Não contaremos castelos, resíduos, serão tantas humilhações que o medo partirá o perfume das flores. Cada punição há de nos parecer uma indagação sobre a felicidade. E sob as árvores o rastro das cidadelas. Passemos sob as árvores mortas dos canais.

EMISSARIES

“He is multiple and cannot be tamed…Like life

itself, he transforms himself ceaselessly and thus makes

the universe function. His is the job of receiving the offerings

and distributing the gifts.” (Monique Augras)

1/ THE MEETING

Like a city growing from mold, the rose of a corpse over the gardens. We would be relieved if the spotlessness of these chandeliers did not break the enigmatic stone we carry. Our death rests in peace: well-deserved desire of fire. They also dismantle the flowers with the help of the harlequins. And we do not know why we are the lightning’s goal. Like a city, the rose of a corpse among the gathered people.

“He transforms all things, for having swallowed

and given back all things. Exu is life, with all its contradictions

and syntheses.” (M.A)

2/ REQUEST

We reject protection on behalf of the absence of what we have delivered. We ought to tell them, but perhaps they would lose their beards in the constellation of skeletons. The towels over the marquees, maybe we should take their lives. But the request comes with us, and a book punishes itself in the street corners where arrows fall in love. Let us go on beneath the trees.

“Exu is the unit that multiplies to infinity…

Everything that joins together, multiplies, separates,

transforms itself, all this is Exu.” (M.A)

3/ WALKING AROUND

And under the canals of a city where the kiss martyrs the forests. Soon we will be in the station and no dew will accept defeat. The street corners sharpen destiny to a severe point. Then the embrace, in another city, one city after the other. We will not possess castles, remains. There will be so many humiliations that fear will cut open the flower’s perfume. For us, each punishment will seem like a questioning of happiness. And beneath the trees, the trail of the citadels. Let us go on beneath the dead trees of the canals.

“Orumilá, que é o deus supremo em sua função

de senhor do destino, foi pedir um filho a Oxalá.

... todos se tornaram servidores de Orumilá, que

manda no oráculo de Ifá. ” (M.A)



“... pássaros simbolizam a fecundidade das Grandes-

-Mães, e (...) as plumas representam a multidão dos

descendentes. Por isso, Oxum é a ‘dona de muitas penas

de papagaio’.

Mãe da riqueza, Oxum é a alegria do sangue das

mulheres fecundas. ” (M.A)

GESTAÇÃO

Para celebrar meu amor procuro uma cidade de espelhos. Meus filhos não conhecem a tempestade que oculto nos olhos, ocupam-me e eu os continuo. Antes de perecermos será possível diluir o silêncio que nos adia. Temos a vida e a morte como o céu as chuvas tardias. Porque a vida não é só o rio sob as nuvens ou o amor se perdendo nas gemas do corpo esquecido.

“...birds symbolize the fertility of the Great Mothers

and (...) the feathers represent the multitude of desdendants.

This is why Oxum is the ‘owner of many papagayo feathers.’

Mother of wealth, Oxum is the happiness of fertile

women’s blood.” (M.A)

GESTATION

The celebrate my love, I search for a city of mirrors. My children do not know the storm I hide in my eyes: They keep me occupied, and I am their continuation. Before we perish, it will be possible to dilute the silence that postpones us. We have life and death the way the sky has late rains. For life is not simply the river beneath the clouds, nor is it love lost in the yolks of eggs, gems of the forgotten body.


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Edimilson de Almeida Pereira é mineiro de Juiz de Fora. Poeta, ensaísta, professor e pesquisador da cultura e da religiosidade afro-brasileiras concluiu Pós-doutorado em Literatura Comparada na Universidade de Zurique, na Suíça. O autor é Professor Titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Com dezenas de livros e artigos publicados, Edimilson de Almeida Pereira recebeu vários prêmios e foi finalista no Prêmio Jabuti em 2018 com "QVASI: segundo caderno" (Editora 34)


*Steven White é um poeta, editor e tradutor americano.

Steven White is an American poet, editor and translator.

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