• Capitolina Revista

A escritora


Texto de Marta Barbosa Stephens



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Marcou o jantar para nove horas e às nove em ponto os dois convidados chegaram. Eles sabiam que pontualidade era um bem valorado pela escritora, elegante em um vestido cor de vinho justo até os joelhos, encaixado em moldura no corpo curvilíneo, magro e rígido, quase estranho àquele rosto das contracapas dos livros.

Estar ao lado dela beirava o constrangimento. Sua beleza, seu olhar, o que era capaz de falar, o que conseguia ver, tudo nela intimidava aqueles dois homens na mesma medida em que os atiçava.

O convite para jantar na casa da maior ficcionista daquela geração foi perturbador.

Entraram pensando o que diriam ao sair, um ao outro, aos amigos, a eles mesmos. O que poderia acontecer em uma noite como aquela: dois inacabados diante de deus, a cruzar as pernas enquanto acendia um cigarro após o outro e tomava curtos goles no uísque.

A noite pesou e nada de mesa posta, cheiro de comida ou passos de criados. A escritora simplesmente não mencionou o jantar, como se nunca houvesse sido planejado. Suas escassas palavras os fizeram falar mais, e mais. Todos beberam muito, rapidamente, com desespero para mudar de órbita.

Enquanto os dois homens falavam, reversando-se em anedotas e causos desimportantes, a mulher que tudo sabia deixou o pensamento voar. Em seu vagueio, reviu-se.


Passou a vida tentando querer menos. Desejou de um tanto que doeu no meio do peito quando se sentiu incapaz. Quis não se importar. Tentou não pertencer. Treinou um olhar entre o distante e o muito perto, de forma a ouvir o que os outros diziam com feição de quem ou nada entendeu ou já sabia de tudo.

Do coração distanciou-se. Sentiu com a cabeça. Só deixou passar o que sua consciência aprovou, porque queria viver assim a proteção da qual falavam os

livros. Difícil mesmo foi entender a solidão. Aquele horrível vazio de quem notava ter ninguém por exato momento e lugar, formando profunda fenda entre ele e o outro.

O nome dado àquele peso é angústia. Mas preferiu chamar de encontro consigo mesma. Achou que dali sairia uma transformação. Porém a transformação nunca veio.

O processo deixou-a apenas mais machucada e obviamente mais preparada para identificar com antecipação uma nova amargura. Saía de uma, entrava em outra, e seguia repetindo-se.

Fosse como fosse, dessa vez não entendeu. Estava no vazio da fenda. Viu quando chegava, mas não viu quando se tornou. Foi um susto notar-se acompanhada. A mulher de todos os tempos sentiu uma brisa leve diante dos olhos.

Olhou os homens como se olha um quadro. Não escutou o que falavam, mas entendeu o que diziam porque leu seus corpos. Repetiam movimentos sem sincronia, mas com graça. E foi isso que a mulher quis: o abraço confortável da beleza. Viu nos homens o belo assimétrico, o descompasso do mais primitivo gozo masculino. Gostou daqueles rostos rudes, sem meiguice, sem nada que lembrasse o divino.

E se apaixonou por eles juntos, como um quadro.



Marta Barbosa Stephens é autora de “Voo luminoso de alma sonhadora” (2013, Editora Intermeios) e “Desamores da portuguesa” (2018, Imã Editorial). Tem contos publicados em diversas antologias como “A mulher perdida em narrativas” (2017) e “Perdidas, histórias para crianças que não têm vez” (2017).


Marta Barbosa Stephens has published “Voo luminoso de alma sonhadora” (2013, Editora Intermeios) and “Desamores da portuguesa” (2018, Imã Editorial). She is the author of short stories published in various anthologies as “A mulher perdida

em narrativas” (2017) and “Perdidas, histórias para crianças que não têm vez” (2017).

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